Marcos no espelho

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por Cassiano Rodka

Quando Marcos se olha no espelho nunca vê a mesma pessoa.

Às vezes, ele acorda Eusébio. E quer fuçar nos seus livros e devorá-los todos, palavra por palavra. Sua maior frustração é saber que nunca terá tempo de vida o suficiente para ler todas as obras que gostaria. Mesmo assim, ele mantém Ulysses na cabeceira esperando.

Mas quando quem levanta é João, não há quem o tire da frente da TV. E fica lá assistindo fragmentos de programas e comerciais insistentes. Se não está no sofá, é porque a geladeira exigiu atenção. E se o congelador oferece sorvete, ele convida o pote inteiro para passar a tarde com ele.

Quando o reflexo é Felipe, sabe que o dia será sombrio. Lembrará dos sabores mais amargos que ficaram grudados no palato da mente. E vai derramar uma lágrima contida por cada um dos erros que cometeu.

Melhor seria enxergar sempre o sorriso de Luís. E sentir a disposição nos músculos, aquela vontade de fazer tudo de uma vez só e ainda ter a satisfação de tudo ter saído da melhor maneira possível. Mas teria essa felicidade sentido se não fosse às vezes ele Felipe?

O diabo é quando ele acorda Francisco e Jeremias. Passa o dia em preto e branco, ora gostando, ora odiando as mesmas coisas. E ecoam palavrinhas e palavrões! É como se andasse de gangorra consigo mesmo, encarando, com certa cumplicidade, o seu rival.

E é apenas em algumas raras vezes – raras mesmo! – que ele consegue pôr seus olhos no espelho e ver um sujeito composto que – não ele, mas os outros – chamam simplesmente de Marcos.

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