Os 4 imperdíveis de Mike Patton

por Cassiano Rodka

Hoje, Mike Patton completa 41 anos de idade. Portanto não posso deixar de aproveitar a data para falar sobre esse que é um dos compositores mais prolíficos de todos os tempos.

Patton já tocou em tantas bandas que é fácil perder a conta. Isso, é claro, se você não for um pattonhead. Como sou um grande fã da obra do cara, resolvi fazer hoje uma pequena lista com quatro álbuns imperdíveis que ele lançou durante essas quatro décadas de vida.

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Faith No More – Angel Dust (1992)
Indiscutivelmente, a obra prima do Faith No More. Depois de conquistar o mundo com uma mistura de funk, metal, cabaret e progressivo, a banda resolveu surpreender os fãs com um disco onde o belo e o feio (con)fundem-se.

Com muitas camadas, as músicas de “Angel Dust” foram lapidadas à exaustão: diversos vocais, teclados, guitarras, efeitos e samples foram gravados para dar vida e sabor único a cada faixa.

Para tornar o processo ainda mais interessante, Mike Patton decidiu interpretar um personagem diferente em cada canção. Assim, as letras foram escritas e interpretadas por figuras como o americano white trash de “RV”, o traficante ególatra de “Crack Hitler” e o presidiário arrependido de “Jizzlobber”.

O resultado disso é um álbum complexo que parece revelar algo novo a cada audição.

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Mr. Bungle – Disco Volante (1995)
Ame-o ou odeie-o, depois de escutar “Disco Volante”, você nunca mais será o mesmo. Um mistura de… bem, de tudo! É como se tivessem pego todos os discos do mundo e posto num liquidificador, produzindo um amálgama de ritmos e melodias que vão desde o death metal arrastado de “Everyone I Went to High School with Is Dead” até o rockzinho Elvis-encontra-Boredoms de “Merry Go Bye Bye”.

Cada faixa é um (insano) mundo próprio, com timbres específicos e andamentos que mudam inusitadamente. Uma verdadeira montanha-russa sonora a toda velocidade, quase descarrilhando. Um grande exemplo é o tango experimental de “Violenza Domestica”, que altera sua melodia diversas vezes sem repetir uma única vez as partes da canção.

Neste segundo álbum do Mr. Bungle, Patton explora bastante algo que já vinha fazendo em alguns projetos: cantar em língua alguma, dando prioridade aos sons que pode produzir com voz e microfone, independente do sentido das palavras. A intenção do músico aqui é utilizar a voz como um instrumento sonoro, criando melodias sem passar uma mensagem ou ideia específica. Duas faixas se destacam trazendo essa forma de cantar: o samba de parque de diversões “Chemical Marriage” e a trilha de desenho animado para internos de hospício “Ma Meeshka Mow Skwoz”.

“Disco Volante” é uma verdadeira experiência sonora que não pode deixar de ser conferida.

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Lovage – Music to Make Love to Your Old Lady by (2001)
Na época em que Mike Patton procurou Dan The Automator para produzir o álbum de estreia do Peeping Tom (mais uma de suas bandas), o produtor musical disse que precisava terminar um projeto seu antes de embarcar em um novo. Patton ficou curioso para saber do que se tratava e Dan explicou o conceito: um álbum de canções românticas para servir de trilha sonora para namoros, como um Barry White contemporâneo. O cantor adorou a ideia, quis escutar as composições e não deu outra: entrou no projeto. Com a adição da voz sensual de Jennifer Charles, vocalista do Elysian Fields, nasceu o irresistível trip hop do Lovage.

Alternando canções sobre ménage à trois e sexo casual com vinhetas sobre ervas afrodisíacas e higiene pessoal (com as participações especiais de Damon Albarn, vocalista do Blur, e o papa do hip hop Afrika Bambaataa), o disco deixa claro que seu conceito não deve ser levado tão a sério assim. As músicas são exageradamente lascivas e as letras são puro deboche. A própria capa do disco já dá a dica: trata-se de uma brincadeira com a capa do segundo disco de Serge Gainsbourg. Imitando a pose do compositor francês, vemos o cabeça por trás do Lovage, o produtor Dan “The Automator”, fumando em uma mesa com uma arma e um buquê de rosas.

Um dos destaques é a cover de “Sex (I’m a)”, sucesso dos anos 80 da banda eletrônica Berlin. Na versão do Lovage, a canção dance vira um dueto cheio de gemidos e sussurros. Jennifer Charles, aliás, é uma das grandes armas do trio. A voz aveludada da cantora simplesmente demanda a atenção dos ouvintes em faixas como “Pit Stop” e “Stroker Ace”. Aliando a suavidade de Charles aos graves de Mike Patton, surgem belos duetos, com destaque para o amor de dois náufragos em “Loveboat” e a troca de carinhos explícita de “Book of the Month”.

Arranje esse disquinho logo e deixe-se conquistar pela deliciosa libertinagem do Lovage.

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Fantômas – Suspended Animation (2005)
O Fantômas é um quarteto que produz o que poderia ser chamado de metal experimental. Mike Patton compõe todas as músicas e depois ensina à banda as partes que executarão no estúdio e ao vivo.

O primeiro álbum surgiu em 1998 e dava a direção do que seria o projeto: um rock pesado com estrutura musical complexa e difícil de absorver nas primeiras audições. Guitarra, baixo e bateria dividem espaço com os vocais de Patton, que decidiu, em vez de cantar letras em inglês, usar seu gogó como um instrumento, produzindo gritos, sussurros e demais efeitos que ele consegue criar com a voz.

O segundo trabalho, “The Director’s Cut”, trouxe uma proposta mais acessível ao público: desconstruir clássicos do cinema de terror e suspense e transformar em faixas no estilo Fantômas de fazer rock. A banda já estava mais entrosada e o show da banda para promover o álbum mostrou-se mais potente e maduro.

Em 2004, uma surpresa: um disco com uma única faixa de 74 minutos onde a banda tocava a trilha sonora de um filme que não existe. “Delìrium Còrdia” explorou o lado mais ambiental e cinematográfico da banda, mostrando que nem só de barulho vive o Fantômas.

Mas foi no ano seguinte, com o lançamento de “Suspended Animation”, que a banda trouxe sua grande obra ao mundo. São 30 canções que representam cada um dos dias do mês de abril de 2005. Nelas, a banda mistura o seu rock a referências infantis, que vão desde canções de ninar até trilhas de desenho animado. O resultado é uma esquizofrênica coleção de belos riffs e efeitos sonoros divertidos, que serviriam perfeitamente de fundo para um passeio da Xuxa pelo Quinto dos Infernos.

O disco também tem o grande mérito de ser o primeiro a conseguir trazer a força do Fantômas ao vivo para o estúdio. Mesmo com os diversos samples de brinquedos e onomatopeias de desenhos animados, dá para visualizar perfeitamente a banda tocando as faixas ao vivo. O show, como não poderia deixar de ser, foi poderoso e marcou presença também aqui no Brasil no festival Claro Que é Rock.

Para quem ainda não conhece, sugiro procurar essas 4 pérolas da discografia pattoniana. E quem já é velho conhecido sabe que vale a pena escutar mais uma vez. 😉

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