A história da rainha do soul

por Cassiano Rodka

Contar a história de Nina Simone através de suas músicas não é tarefa fácil. A pianista e cantora interpretou tantas canções de gêneros tão diversos, que resumir sua carreira sem perder todas as suas nuances é um trabalho delicado. De Kurt Weill a Bee Gees, passando por Burt Bacharach e Screamin’ Jay Hawkins, Nina sempre soube absorver o que havia de melhor sem medo de apostar nas suas escolhas.

Assim, construiu uma discografia rica que abrange estilos musicais distintos: jazz, pop, blues, música clássica, funk, folk, soul, gospel, ritmos caribenhos e africanos, só pra citar alguns. Para comportar tudo isso só mesmo lançando uma coletânea que inclui 3 CDs e um DVD.

ninasimone_tobefree

“To Be Free: The Nina Simone Story” traz 51 faixas gravadas entre 1957 e 1993, incluindo 8 faixas inéditas e um documentário com 9 performances ao vivo. As inéditas incluem:

– “When Malindy Sings/Swing Low Sweet Chariot” ao vivo no Newport Jazz Festival em 1963;
– “Ain’t Got No – I Got Life”, um dos grandes hits de Nina, aqui na versão que foi lançada como single em 1968;
– Uma versão ao vivo com climinha latino muito bacana de “Suzanne” do Leonard Cohen, mais animada que a versão de estúdio;
– “No Opportunity Necessary, No Experience Needed” ao vivo no New York’s Philharmonic Hall em 1969);
– “Tanywey”, uma inédita recém descoberta, gravada durante as sessões do disco “Here Comes the Sun”e tão ensolarada quanto um passeio no parque, certamente a grande pérola dessa coleção;
– Um dueto emocionado de “Let It Be Me” com o seu irmão na base militar de Fort Dix;
– “Nina”, uma bela jam com toques indianos;
– E a africana “Zungo”, ao vivo no New York’s Philharmonic Hall em 1973.

É claro que os hits estão todos presentes também. Desde o primeiro single, “I Loves You Porgy”, passando pela dramática versão de “Don’t Let Me Be Misunderstood” e a suavidade dos vocais de “Feeling Good”. O blues aparece bem representado na sensual “I Want a Little Sugar in My Bowl” e o pop na irresistível versão de “To Love Somebody”, dos Be Gees. Temos ainda a imprescindível trilha de perfume “My Baby Don’t Care for Me” e a belíssima “I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free”, uma das canções de protesto de Nina Simone.

As canções que lutam pelos direitos civis e que condenam o racismo, aliás, são grande marcos na carreira da pianista. “Four Women” e “Mississipi Goddam”, duas composições próprias, destacam-se na coletânea. Tocada ao vivo poucos dias após a morte de Martin Luther King, “Mississipi Goddam” traz uma Nina invocada. Ela convoca a plateia a cantar junto e provoca: “Ele era um de vocês. Se vocês se emocionaram e conhecem minhas músicas, pelamordeDeus, cantem comigo! Não fiquem aí sentados! Agora já é tarde, sabiam? O rei está morto! O rei do amor está morto!”. O belo hino negro “Young, Gifted and Black” também dá as caras, em uma versão de estúdio lançada anteriormente apenas em single.

O lado africano de sua discografia fica bem representado em faixas como “See-Line Woman”, “Westwind” e a nervosa “Funkier Than a Mosquito’s Tweeter”. Mas não posso deixar de lamentar a falta de “Sinnerman” nesse grupo, uma grande música da cantora que acabou ficando de fora. Mas fiquei bastante feliz e surpreso com a inclusão de algumas faixas mais inusitadas, como a teatral “Pirate Jenny” e os 18 minutos e 20 segundos da versão de “My Sweet Lord/Today Is a Killer”, de George Harrison. Impossível não ficar com essa melodia na cabeça depois de escutá-la na interpretação de Nina.

Não percam tempo e comprem/baixem/deem de presente essa deliciosa coleção de canções de uma das maiores intérpretes e compositoras que já tivemos conosco.

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