Dia dos namorados

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por Clarice Casado

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.”

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis

O que eu mais gostava nela era do jeito que passava pelas prateleiras de best-sellers. Sem virar o rosto, firme, exibida, com aquela certeza forte de que nada ali tinha utilidade alguma. Se me chamasse no meio da noite para um encontro no pior restaurante da cidade, eu iria. Para mim, era só ela. Ela não sabia, nem entendia, nem fazia a menor ideia do tamanho da minha obsessão. Quieta, calada, velada. Escondida. Ferida, até. Fazia que não via. E eu sabia que via.

Um dia, nossos mundos desmoronaram e ela resolveu finalmente olhar para mim. Eu não acreditei muito naquilo, mas ela quis casar comigo. Ficamos casados por mais tempo que muita gente vive.

Durante cinquenta anos, entre viagens, filhos, cartas, brigas, netos, beijos, reconciliações, Natais, verões azuis e invernos turbulentos, loucuras e surpresas, enchi seus dias com presentes. Sempre. Podia haver motivos. Ou podia ser só porque eu tinha vontade. Era só ela.

O que eu não esperava era morrer. A gente nunca espera. Mas morri.

Podia ser uma segunda-feira qualquer. Com todos os encargos, preguiças, lembretes e chatices de uma segunda-feira qualquer. Uma única diferença: eu não estava nela. Morri no sábado. Dois dias atrás, portanto. Morri, mas não perdi a noção de tempo. Eu que sempre adorei sábados. Estraguei o sábado de todo mundo.

Morrer é um pouco perturbador. E eu nunca tive medo de morrer. Ainda estou meio perdido. Mas tem suas vantagens. Olhar tudo de cima. Que o diga muito melhor que eu Brás Cubas. Li na escola, e sempre achei que aquilo era o melhor que poderia acontecer a um sujeito depois de morrer: ver tudo. Tudo. E contar a sua versão. Eu não lembro direito do romance, porque, como disse há pouco, li faz muito tempo. Não sei se há na narrativa póstuma detalhes das coisas que acontecem por aqui. Eu também não vou contar nada, não vou ser eu o primeiro cara a fazer isto, mesmo porque nem sei se é permitido. Ainda sou novato. Novatos não arriscam, isso pode perturbar os veteranos. Eu sei que existem uns superiores. Ouvi dizer. Só conto uma coisa, uma notinha curiosa: as verdadeiras nuvens do Paraíso são mesmo de algodão. Os meus netos iam adorar saber disso. Essa é uma das coisas chatas desta viagem. Não posso voltar, e nem levar fotos de nada para ninguém. Nem presentes. Nem para ela nem para nenhuma pessoa viva. Se bem que parece haver um esquema de poder contar coisas em sonhos, para os que ficaram. Mas neste momento isso não me importa muito. Vejo tudo depois.

Eu só sei que hoje é segunda-feira. E é Dia dos Namorados. Isso é o que importa. E eu só sei que a minha amada, minha querida, minha companheira de sempre e para sempre vai chegar em casa daqui a pouco, ela vai chegar em instantes, seu rosto está sério, está mudo, é o rosto que sempre amei, mas está diferente. Ela vai abrir a porta, vai entrar na nossa sala, e em cima da mesa vai haver para ela um buquê de orquídeas. Eu só sei disso. E sei disso porque fui eu quem mandei. E não me peçam mais explicações. Apenas aproveitem o momento. Vocês, simples mortais.

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