Reine sobre mim

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por Clarice Casado

Eu não tinha ideia do que tratava o filme quando comecei a vê-lo. E daí foi assim: eu vi o início num dia, e parei. Uns dias depois, vi o meio, e parei também. E foi então que eu consegui ver o filme inteiro. E fiquei tocada ao extremo. E é por isso que hoje escrevo.

“Reign Over Me” tem uma história singela. Singela, mas imensa, forte. Daquelas de chacoalhar o espírito e mexer com as estruturas. Eu digo singela porque fala de morte. E de vida. Questões tão complexas e ao mesmo tempo tão banais. Pelo menos banais quando se trata de descrevê-los sob a forma de arte. Todo mundo escreve, pinta, esculpe, compõe ou canta sobre vida e morte. Mas poucos sabem tratar a vida e a morte de maneira a desordenar seu pensamento, ou melhor: de maneira a fazer com que você perceba, “Isso pode acontecer comigo, isso poderia acontecer comigo”, e é aí, leitor, é bem aí que a arte atinge você: quando faz com que se sinta identificado, quando faz com que o sujeito se coloque naquele lugar, reflita, e deixe a emoção invadir de soco.

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O protagonista é o que se convencionou chamar nos Estados Unidos de um “viúvo do 11 de setembro”. O cara perdeu a família inteira naquela fatídica data do ano de 2001. A mulher e as três filhas pequenas estavam em um dos aviões que chocaram-se contra as torres do World Trade Center, em Nova York.

O interessante é o que o filme não está nem aí pro aspecto político ou social da história que todo o Mundo já sabe de cor. O filme enfoca o protagonista, somente ele e seu sofrimento. O seu sofrimento e a sua loucura. A sua loucura decorrente do tal “estresse pós-trauma”, patologia muito comentada atualmente.

Não vou falar dos atores, nem do trabalho dos atores, porque não sou crítica de cinema. Falo de vez em quando de música e filmes neste espaço, mesmo não sendo esse o meu “papel” por aqui. Eu falo de arte, falo das coisas que me tocam. Mas eu dizia que não vou falar de trabalho ator, de atriz, de diretor, isso nem me importou no filme. Fiquei tão perturbada pela história, que todo o mais se tornou irrelevante. O roteiro do filme reinou sobre mim. E isso é o que interessa agora.

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Duas coisas que me impressionaram mais:
O protagonista se isola do mundo em seu estresse pós-traumático e anda alucinado pelas ruas de Nova York em um patinete maluco e motorizado, sempre com os ouvidos cobertos por fones que tocam a canção “Love, Reign Over Me”, do The Who. Daí o título fabuloso do filme. Eu adoro títulos bem bolados. Eu só comecei a ver este filme, aliás, porque o título chamou muito a minha atenção. Voltando à história: o mundo morreu para o cara. As pessoas que ele mais amava se foram para sempre, e o foi o mundo quem morreu. É claro, como poderia ser diferente? Eu não acho que haja uma outra saída pra uma situação abominável como esta, a não ser morrer também, poxa vida. Mas aí é que o filme conforta. Na famosa “saída”, na famosa calmaria pós- tempestade. Ela sempre existe. Só que o caminho até chegar a ela é duro, é doído, insuportável. É insuperável. Os relatos que ouço de pessoas que perderam gente querida são todos assim: nunca se esquece. Lembra-se todos os dias, todos os dias, todos os dias. Só aprende-se a (con)viver com aquela lembrança diária. Quem fica precisa escolher entre entregar-se junto ou seguir. E esta deve ser a prova maior da morte para quem ficou: seguir vivendo em um mundo sem um motivo para tanto.

O momento mais delicado do filme acontece em uma conversa entre o protagonista e um antigo amigo de faculdade, que o encontra depois de anos, exatamente neste período de crise. É um relato doído sobre a última conversa que teve com a esposa antes do acidente: ela aguardava com as três filhas na sala de embarque do aeroporto de Boston pelo fatídico vôo para Nova York e tentou falar para o marido sobre uma ideia de reformar a cozinha da casa da família. Ele, apressado, saindo para o trabalho, totalmente submerso na rotina diária, trata-a com agressividade, e desliga o telefone rapidamente. É com desespero que se vê o protagonista arrepender-se, dar-se conta de sua impotência frente ao destino que não pode ser modificado, de sua vontade implícita de voltar no tempo e refazer aquela última conversa, de reverter sua própria história, limpando erros cometidos, retirando gestos mal feitos, apagando palavras já ditas, tentando ser, naquele momento do passado, alguém que ele não fora, mas gostaria de ter sido.

Devastada, fiquei pensando que fazemos isso muitas vezes. Brigamos com quem amamos por motivos idiotas, saímos sem nos despedir, fechamos a porta com força, gritamos ao telefone, deitamos sem dar um beijo de boa noite, perdemos o controle. Porque sabemos que ao final do dia, ou amanhã de manhã, ou daqui a poucos dias, vamos estar bem novamente, vamos fazer as pazes, vamos dizer eu te amo. Mas sabe qual é o pior? Não dá pra deixar de brigar com medo de um dia a pessoa com que você brigou morrer. É a vida. Briga é briga. Temos nossos maus dias. Ninguém consegue ser sempre felizinho e perfeitinho. O problema é outro, é básico, é fácil, é óbvio. E é duro: morrer é assim. É um fim repentino de algo que parecia muito, mas muito real. O mais doido de morrer é a sensação do real virando abstrato, não palpável, não cheirável, não audível, não visível. Uma pessoa amada que simplesmente desaparece. A loucura da morte está na dor incomparável do rompimento repentino, sem aviso, sem trégua, que arrebata, que dilacera. É a impossibilidade eterna do beijo de pazes, do abraço de desculpas, do carinho certo, esperado, quase com data marcada.

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“Reign Over Me” é um filme sobre as pequenas-grandes mudanças da vida e a delicadeza das relações humanas. É um filme sobre a fragilidade, e, ao mesmo tempo, sobre a força inacreditável que pode surgir em nós em momentos de total desamparo, desalento, desespero. É um filme sobre a dor e sobre como tentar superá-la. É sobre os pequenos mundos interiores e exteriores que criamos. É sobre olhares diferentes sobre as mesmas coisas e situações. É sobre o amor, a falta dele, e a consciência sobre a dor que a falta dele pode trazer. Sobre a impossibilidade de mudar o que já foi. Sobre a possibilidade de mudar o que ficou. Sobre todos nós.

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