No submarino amarelo

nosubmarinoamarelo.jpg

por Clarice Casado

Ao Padrinhal,
como não poderia deixar de ser.
À Lucy, Jude, Michelle e Eleanor.

“In the town where I was born,
Lived a man who sailed to sea,
And he told us of his life,
In the land of submarines,

So we sailed on to the sun,
Till we found the sea of green,
And we lived beneath the waves,
In our yellow submarine,

We all live in a yellow submarine,
yellow submarine, yellow submarine,
We all live in a yellow submarine,
yellow submarine, yellow submarine.”

Trecho de “Yellow Submarine”,
de Jonh Lennon e Paul McCartney

A primeira canção que aprendi em inglês foi “Yellow Submarine”. Na época, com oito anos, acho que nem sabia direito quem eram os Beatles, apesar de ter um tio especialíssimo, meu padrinho de batismo, fanático pela lendária banda inglesa. Ele ainda é maluco por eles, até hoje. É daqueles que coleciona posters, bonequinhos, livros, camisetas, todos os álbuns em vinil, CD e o que mais a tecnologia trouxer de bom a este século, isso incluindo DVDs, blu-rays e afins.

Toda vez que vejo algo dos Beatles, penso nele. Quando estive em Londres, em 1997, fui ao Madame Tussaud e tirei uma foto com as réplicas em cera de John, Paul, Ringo e George e depois mandei fazer uma camiseta com a foto estampada, pra dar pro meu padrinho.

Adulta, fui percebendo que também gostava dos quatro rapazes de Liverpool. E muito. Comecei de leve, ouvindo de novo “Yellow Submarine”, já em CD (no álbum de mesmo nome), quando vim morar em São Paulo, em 1996. Tinha 22 anos. Passou a ser meu vínculo sentimental com o Padrinho (acho que ele nem sabe disso), um cara que foi muitíssimo presente e importante na minha criação. Esteve comigo durante a infância e adolescência, e até na “pós-adolescência”, quando aprendi a jogar futebol de botão só pra ficar mais perto do meu namorado (hoje marido), que fugia todo final de semana pra casa do Padrinho, pra participar de campeonatos (ao som de Beatles, claro!), que ele criava pra alegria das filhas, sobrinhos, afilhados, primos, amigos e agregados. Meu namorado tinha sido, como todos nós, irreversivelmente enfeitiçado pelo meu querido Padrinho, o Padrinhal, como eu o chamo desde criança: o cara mais malucamente legal que já conheci em minha vida.

Eu não sabia bem a importância dos Beatles aos oito anos, mas sempre que ouvia uma música deles, associava ao Padrinho. Era como se a palavra Beatles viesse automaticamente junto com a carinha dele, uma coisa que a semiótica não explicaria… E isto acontece comigo até hoje.

Segui comprando todos os álbuns e lendo sobre os Beatles loucamente, usando as músicas nas minhas aulas de inglês, que, diga-se de passagem, agradam desde os adolescentes de 13 anos até adultos das mais variadas idades. É isso que é impressionante nestes quatro guris ingleses: a unanimidade e a atemporalidade. Todo mundo gosta dos Beatles, em maior ou menos escala, em qualquer época da História: talvez mais de alguma fase que de outra, mais do Ringo que do Paul, mais de “Across the Universe” que de “Lucy in the Sky with Diamonds”, não importa, eles são sempre lembrados.

Nesta semana, meu iPod do carro resolveu tocar “Yellow Submarine”. Resolveu, sabe como são as máquinas. Têm sentimentos. Estava a fim. Minha filha de dois anos simplesmente amou. Comecei a cantar, porque sei a letra de cor, óbvio, já cantei sozinha um zilhão de vezes. Eu cantava e a guria se matava de rir, achou a música muito engraçada, “Mamãe, muito maluca essa música!”, e a parte preferida foi disparado o refrão, We all live in a yellow submarine/Yellow submarine…

A letra é simples, é bonitinha, é fácil de decorar. Eu nunca li nenhuma interpretação da canção, aquelas maluquices que os críticos inventam sobre as letras de música, afirmando que o artista “queria dizer isso ou aquilo”, ou que há significados “ocultos” em mil canções dos Beatles, essa besteirada toda. Não vou negar que arte traz significados escondidos. Como escritora, nem poderia dizer o contrário. Mas às vezes o artista quis simplesmente fazer aquilo porque queria, porque achou bonito, ou lúdico, ou sei lá o quê, o fato é que acho que “Yellow Submarine” quer dizer exatamente aquilo que diz, quer contar a história de um contador de histórias, um cara meio mágico que viajou pro mar pra viver na terra dos submarinos, por mais doido que isso pareça! O fato é que o marujo contador de histórias levou todo mundo que vivia ao seu redor pra terra dos submarinos, uma terra maravilhosa com tudo de bom e bonito, e todo mundo foi pra lá num maravilhoso e surreal submarino amarelo! E viveram felizes submersos nas ondas… O submarino amarelo é o veículo pra aquele lugar que todo mundo sonha ir ou estar um dia: aquele lugar onde não há nada além de prazer, alegria, ócio, diversão. O submarino amarelo é aquela vontade de rir. O submarino amarelo nos remete àquele lugarzinho confortável e escondido do tempo e presente sempre na memória : a infância. Pode ser um baita clichê, mas quem se importa? São os Beatles, poxa vida! É genial. E os caras já sabiam disso há décadas.

“Yellow Submarine” agrada as crianças (e aos adultos) porque tem mesmo algo de muito mágico. Algo que agrada aos ouvidos e ao coração. Um não-sei-que que dá uma baita sensação de alívio, de alegria. Pode parecer louco, mas estar um submarino amarelo junto com todos os seus amigos é um negócio psicodelicamente possível e altamente divertido. “Yellow Submarine” é lúdica, é melodiosa, é cheia de poesia, cheia de imagens, aquele barulhinho de água no meio da música…

E foi então que eu percebi que eu vivi num submarino amarelo. Vivi durante toda a minha infância e adolescência num fantástico submarino amarelo toda vez que o meu Padrinho nos visitava e toda vez que o visitávamos e ele inventava que era os mais incríveis heróis, detetives, loucos e inventivos cientistas; quando ele passava filminho Super 8 pras crianças da família, e deixava todo mundo louco quando dizia que ia embora… Meu Padrinho é o marujo contador de histórias de “Yellow Subamarine”. É ele, tenho agora a mais absoluta certeza. É o cara que nos levou pros verdes mares em um submarino amarelo. Nós éramos a “galera” do submarino amarelo, e ele, nosso mágico condutor. Ainda é.

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