Última carta

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por Clarice Casado

Prezada,

O problema é que muita gente já morreu aqui. E eu pensando que isso era bobagem. Pouca gente entra e muita sai, e isso não é bom para casa nenhuma. Casa é personagem. E principal, ainda por cima. Não tem cristo que me faça mudar de ideia. Nunca me disseram que eu não podia sair. O meu corpo foi quem quis. E o corpo escolhe. Só quem sente sabe.
Fica todo mundo vindo me olhar, ver meus restos, o que de mim ainda há. Acompanhar meu lento desfecho. Ouvir meu lúcido delírio. Eu nem quero ficar, mas ninguém parece entender nada. No meu pensamento, imagens embaralhadas, enevoadas, desfocadas, acho que em preto e branco até. Vindo e indo. E voltando, muitas vezes. E quem perdeu o foco fui eu. Eu?
A espera me cansa. Me rouba todos os restinhos daquilo que um dia fui.
Falo coisas que não penso. E nas quais não acredito mais. Na maior parte das vezes, acredito, porque a minha mente diz que é verdade. Vomito idéias desconexas. E ainda acham que vale a pena me cuidar. Que voz eu tenho? A minha não é, é uma voz doida que fala por mim. Da minha, não tenho lembrança.
Quem chega não deixa nada de útil. Apesar de acharem que sim. Só as memórias alimentam essa minha fome de ir embora. E me fazem ficar falando a noite inteira. Memórias têm voz mais forte.
O hoje não existe. E amanhã não tem mais. Quem me dera.
É só uma questão de tempo. Pode vir. Estou pronta.

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