Órfão de uma certa Manaus

orfaodeumacertamanaus

por Clarice Casado

Literatura só é literatura quando alguém a lê.

A epígrafe deste texto é dele. E ele mora na minha rua. Uma cidade do tamanho de São Paulo, e o cara mora na minha rua. Tendo há apenas dois meses passado a figurar como um de meus escritores preferidos, Milton Hatoum, ganhador de três prêmios Jabuti, arquiteta mundos praticamente aqui do meu lado e eu, é claro, nem podia imaginar.

Quando soube que ele iria falar na 25ª Feira do Livro do Colégio Miguel de Cervantes, aqui em Sampa, prometi para mim mesma que faria de tudo para ir. E fui.

Entrei no anfiteatro e a plateia de uns duzentos alunos do Ensino Médio da escola estava animada, esperando Hatoum. Tinham lido dois de seus livros, Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado, este último recém-lançado pela Cia. das Letras. Achei ótimo, ele ia falar justamente das suas duas obras que eu já conhecia, e tinha adorado. Em realidade, ainda estou lendo Dois Irmãos, mas é tão bom que poderia terminar ali onde estou, página cento e tantos, sendo um livro must read na minha modesta opinião.

Um dos alunos o apresenta brevemente em espanhol e em português, seguido por uma professora de literatura da escola, que fala sobre a honra de tê-lo ali mais uma vez. Os adolescentes logo silenciam, respeitosos. Aplausos, aqui, para o colégio Miguel de Cervantes e para os alunos. Nestes tempos de agitada vida virtual, difícil calar adolescentes frente a um cara de cabelos grisalhos que diz com a maior naturalidade (e coragem!) que não entende nada de Internet.

Hatoum é formado em arquitetura. Interessante pensar que um arquiteto possa ser um excelente romancista. Faz todo o sentido. Pensa nas tramas, as constrói com cuidado. Enfeita um pouco aqui e outro tanto ali. Preocupa-se com os detalhes. Espera pacientemente que os personagens comecem a desenhar-se em sua mente.

Inicia dizendo que só publica os livros dos quais realmente gosta, aqueles que ficaram mais perfeitos, mais acabadinhos, sob seu ponto de vista.

Dá em seguida pequena aula sobre foco narrativo, dizendo o quão difícil foi a tarefa de construir o narrador de Dois irmãos, que é de fato notável. Narrador onipresente e muito bem desenhado, vale a pena conferir. Um menino que carrega a dúvida de sua paternidade: um dos irmãos do título do romance é o seu genitor, disso o leitor sabe desde o início, mas nunca chega a saber qual deles. A plateia adolescente protesta, entre risadas, quando Hatoum confessa, irônico, “Nem eu sei quem é o pai do narrador!”. Não faltam ao autor bom humor e carisma.

Declara sua admiração por Machado de Assis e fala abertamente da influência de sua leitura de Esaú e Jacó na ideia central de Dois Irmãos, uma narrativa sobre irmãos rivais.

Uma outra “microaula” sobre o gênero novela, para começar a falar de Órfãos do Eldorado, seu último livro, feito por encomenda da editora Cia. Das Letras para uma coleção com tema específico, Mitos. Confessa que nunca mais fará livros por encomenda em sua vida, apesar de ter gostado muito do resultado final de Órfãos.

“Tem-se que trazer o romanesco para a realidade”, afirma, após falar de famosa frase de Machado, “Fuja do romanesco, porque o romanesco é sórdido”. E essa é mesmo a sensação que se tem na leitura de seus romances: há algo de perturbadoramente real em suas histórias. Senti-me em Manaus, sinto-me parte das narrativas de Hatoum. Isso é literatura.

Comenta sobre a presença de Manaus em seus romances, dizendo que a cidade é um dos personagens. Fala com tristeza de uma Manaus perdida, a Manaus de sua infância e de sua adolescência, hoje totalmente devastada pela especulação imobiliária. Seu olhar de arquiteto revela-se nas opiniões muito severas com relação às construções modernas em Manaus e São Paulo.

Faz crítica dura aos livros de autoajuda, dizendo que “isso não pode ser chamado de literatura; tudo que é feito por magos não é literatura”. Ele, mais do que qualquer outro, três vezes vencedor do prêmio Jabuti, amplamente lido no Brasil e traduzido em vários países, pode de modo sereno fazer tal afirmação. Aliás, vive de literatura, algo louvável (e quase inacreditável) em um país onde pouquíssimo se lê.

Perguntas dos adolescentes, muito bem articuladas, são respondidas informalmente, com bastante sarcasmo, provocando risos nas jovens mentes inquietas. Diz a um deles que “o leitor é uma abstração, o escritor não escreve para um público específico”. Por isso afirma que a autoajuda não é literatura. Quando se sabe quem é o leitor, faz-se somente o que aquele leitor específico quer ouvir, faz-se sempre a mesma coisa, não se cria nunca. O leitor precisa ser surpreendido.

Uma menina quer explicação para o final enigmático de Órfãos do Eldorado. Está curiosa para saber o que aconteceu. Mais uma vez Hatoum ouve protestos bem-humorados dos alunos quando afirma que o romance não deve ser explicado, as lacunas que existem são importantes para a narrativa. “O final fica para a imaginação de vocês”.

Não acredita em romance autobiográfico, mas admite que sempre há elementos da vida do autor ao longo da trama. Diz que o personagem mais rico não é aquele baseado em um indivíduo, mas aquele que é uma mescla de várias pessoas conhecidas e imaginárias, aquele que é, em sua totalidade, criação do autor.

Desconfia quando escreve mais de duas páginas por dias. Detalhista, levou dez anos para escrever Dois Irmãos e dois para terminar Órfãos do Eldorado.

Fala ainda de jazz, políticas brasileira e mundial, arquitetura.

Surpreende. Enfeitiça. Faz o abstrato parecer real. E o real, duvidoso: “Nunca acredite nos escritores. Eles mentem muito…”.

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