Spiderman

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por Clarice Casado

A coisa mais certa na vida de Joana era a consciência de ter um Homem-Aranha em miniatura morando em sua bolsa. Dia sim, dia não, contava-lhe coisas, segredos. Heroicamente ali habitava. Entre papeizinhos inúteis, celular, maquiagem, absorvente, carteira e óculos de sol.

E ela quieta, fingindo que não via. Não ouvia. Não sentia. Vivia com medo de tudo. Mas aceitava-o ali. Ficava esperando pelo dia em que ia ter coragem de falar com ele. Tratá-lo como amigo.

Nos últimos tempos, passava despercebida. Vivia calada. Mal dormida. Ele aparecia como única certeza. Não sabia se ia deixá-lo sair. Se ele quisesse. Curtia quietinha o seu veneno. Doce-azedo. Complicado. Tecia teias incompreensíveis. Só pra prendê-la. E ficava presa. Porque gostava.

Não a deixava dormir. Era ele, era ele, era ele. No pensamento. Não ligava. Ia levando. A vida ficava bem mais divertida assim?

O medo dela (dentre os vários que tinha) era de que um dia ele resolvesse ir embora. Pra sempre. Que jogasse uma mini-teia e fugisse dali, dela, de tudo. Era o medo dela. Era enorme. Se ele fosse mesmo, ela já estava decidida: atirava-se de um prédio. Simples assim. E bem alto, porque o friozinho na barriga ia ser maior. Só porque sabia que havia a possibilidade dele salvá-la. Ele era o Homem-Aranha, afinal.

Só que ele nunca foi embora.

E Joana hoje anda toda feliz pelas ruas, fantasiada. De Mulher-Aranha.

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