Noite

noite

por Clarice Casado

O menino que leu as páginas de Noite recém saídas da máquina de escrever do pai entrou quieto na sala lotada. Quieto e discreto. Discretíssimo. Sentou-se com calma, olhou rapidamente para a plateia de jovens aspirantes a escritores aflita por ouvi-lo falar.

Foi umas das horas mais literariamente proveitosas da minha vida, desde o verão de 1990, quando li três livros por semana, um atrás do outro, como se minha adolescência não tivesse nada mais interessante a oferecer.

O engraçado é que eu o imaginava mesmo como uma noite. Algo meio sombrio, absurdo. Misterioso, inexplicável, e todos aqueles outros clichês definidores do substantivo noite. Toda uma aura escura pairava sobre a minha ideia do Verissimo filho. Nada há de escuridão nele, enganei-me. Mais claro e objetivo, impossível. E refinadamente bem humorado, em toda a sua quietude.

Grande leitora e admiradora das obras de seu pai, Erico, fiquei eufórica com a possibilidade de ouvir o filho, a quem igualmente leio e admiro. Segundo ele próprio, porém, escrever não é o que mais gosta de fazer. Indagado sobre sua preferência em escrever contos, romances ou crônicas, respondeu curto (mas nada “grosso”, como talvez se pudesse esperar de um gaúcho), que o que gostava mesmo era de fazer música. De tocar. Produzir melodias. Senti um certo mal-estar na plateia quando essa resposta foi ouvida: um escritor que prefere fazer música a fazer literatura? Sorri por dentro. Aspirantes a escritores chocam-se quando alguém lhes arranha o sonho. Eu, não. Sei dar a cada coisa o seu devido valor.

Não tocou nas garrafinhas de água que estavam a seu lado em uma mesinha. E o calor era terrível. Mal se mexeu na cadeira durante o tempo todo. Mas confessou, sorrindo, que nunca falara tanto em sua vida.

Falou de seu processo criativo, sem fazer mistério. Comentou que lê pouca ficção atualmente. Dos jovens autores, quase nada conhece. Dedica-se a leituras de revistas e periódicos, pois precisa manter-se sempre informado para fazer suas crônicas semanais nos jornais Zero Hora e O Globo.

Seguiu com um pouco sobre futebol, preferências literárias, de como começou a escrever. Erico nunca o “empurrou” diretamente para o ofício. Sua existência como escritor, apenas, levou o filho a traduzir-se no papel. Foi extremamente sincero ao dizer que era óbvio que o fato de ser filho de Erico Verissimo o ajudara muito na carreira. Pouco falava sobre literatura com o pai, por serem os dois homens calados e ensimesmados. Só acompanhava de perto a produção de Erico; leu alguns de seus livros enquanto estavam sendo feitos, saídos frescos da máquina de escrever.

Contou que todos os romances que escreveu foram encomendados para coleções de editoras. No momento, está trabalhando em seu primeiro romance “espontâneo”, que deve chamar-se Espiões.

Um ouvinte fez então a última pergunta: “Verissimo, qual a pergunta que nunca lhe foi feita, mas você gostaria de responder?”. Pensou por alguns instantes, e disse que seria “Quando chegar no Céu, o que gostaria de ouvir de Deus?”. Com um sorriso de guri, a resposta: “Por que demoraste tanto?”.

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