Tirano

tirano

por Marcella Marx

No espelho não conseguiu enxergar sua imagem. Quanto mais se aproximava dela, mais aumentava a distância, até perder-se no imenso. Cego de luz, ria sem escutar o grunhido agudo de sua voz ressoando por entre os cômodos. Levou as mãos ao rosto e não sentiu os espinhos perfurarem seus dedos, nem o sangue que escorria. Os lábios escancarados em riso fizeram com que o líquido espesso se depositasse nos cantos da boca. Logo a penetrou, e ele nada experimentou do sabor agridoce. Os anos o obrigaram a sentar sem saber bem onde. Dali da latrina imunda, odor algum percebia. Não ouviu quando dois meninos entraram pela porta e levaram sua máquina de escrever e seu polígrafo. Quando já descansado, levantou-se e seguiu deixando um rastro vermelho pelo chão.

– Quando teremos notícia do coronel?
– Está recolhido em sua casa de campo preparando a nova lista.
– Mais uma?
Fez um sinal afirmativo com a cabeça.
– Por que não fazemos os testes aqui mesmo?
– Ele prefere realizar lá, diz que precisa estar mais concentrado para impedir erros.

Duas fortes pancadas anunciavam a chegada de dois de seus homens.
Apoiado à mesa, escutou as batidas e deu ordem para que entrassem; sempre deixava as portas abertas.

– Coronel, trouxemos o último nome da lista.

O homem ergueu os olhos, e não viu a mulher com a criança embrenhada em seus braços paradas a sua frente.
Deu ordem de execução.

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