O dia em que a juventude perdida encontrou suas raízes

por Cassiano Rodka

Mais uma vez, o Porto Alegre em Cena trouxe grandes apresentações à cidade. Além de ótimos espetáculos de dança e teatro, a edição deste ano nos presenteou com a saudável insanidade proporcionada pelo mais recente show do mestre atonal Tom Zé.

O compositor lançou em 2007 o disco “Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício”, onde procura falar da importância da presença do negro no Brasil através de um linguajar que alcance a juventude consumista e apática que o País abarca atualmente. Quê?? Pois é, vamos por partes. O cantor leu uma pesquisa de marketing feita pela MTV que revelava que o público jovem tinha uma forte tendência para o consumismo, a música eletrônica, o hedonismo e a falta de responsabilidade social. Um público desinteressado em conhecer as suas raízes ou a sua cultura. Música? “Um sonzinho animado, dançante, mas sem muitas letras, por favor”. Foi a deixa para Tom Zé criar um álbum semi-instrumental, com apenas onomatopeias e poucos trechos cantados, misturando a música eletrônica minimalista com a complexidade dos ritmos brasileiros. O resultado lhe rendeu o Prêmio Shell de Música 2007. E, ao público porto-alegrense que estava no Teatro Bourbon no dia 22 de setembro, um show memorável.

Tom Zé, ou melhor, um homem-vitrola autointitulado DJ Tão Zé chega no palco acompanhado de sua banda e logo começam a tocar as sete músicas que compõem o álbum “Danç-Êh-Sá”. Entre uma faixa e outra, o cantor explica o conceito do disco e viaja nas mais loucas interpretações da realidade atual com muito bom humor e – verdade seja dita – muito pé no chão. As intercalações justificam cada música do repertório divertido e aparentemente despretensioso da apresentação. As canções, ou pós-canções como o compositor as chama, dizem muito com apenas poucas palavras. Criticam uma geração anestesiada pela adoração às celebridades passageiras, à beleza comprada e ao supérfluo. Para garantir que todos entendam sua mensagem, Tom Zé segue o show com algumas de suas músicas antigas que abordam os temas principais da apresentação: juventude perdida e raízes encontradas. Nos versos de “Sofro de Juventude”, o cantor provoca: “Eu sofro de juventude / essa coisa maldita, / que quando tá quase pronta / desmorona e se frita.” A clássica “Parque Industrial”, que fez parte do disco “Tropicália”, surge para lembrar da grande revolução proporcionada por esse que foi o maior movimento musical da história do País. A crítica à política nacional e mundial se revela em canções como a novata “Abrindo as Urnas”, que cita pedaços do hino nacional, e o hit de 2003 “Companheiro Bush”. Mas o grande destaque do show acaba ficando nas mãos da mezzo-ode à decadência de “Brigitte Bardot”, que apesar de ser datada de 1973, soa mais atual do que nunca, como um anti-hino à cirurgia plástica: “A Brigitte Bardot está se desmanchando / e os nossos sonhos querem pedir divórcio / Coitada da Brigitte Bardot, que era uma moça bonita, / mas ela mesma não podia ser um sonho / para nunca envelhecer.”

Saltitando feito uma criança que acaba de fazer arte, Tom Zé deixa o palco e uma plateia satisfeita que só pode torcer para que o compositor não se desmanche tão rápido quanto a Brigitte Bardot.

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imagem: Cassiano Rodka

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