Testamento

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por Marcella Marx

“… deixo de mim um pouco em cada voz, sonho e angústia…”

Vendo a folha timbrada em branco a sua frente, respirou fundo e um gosto amargo lhe veio à boca. Era incoerente passar a vida criando histórias e, no momento da despedida, ter que usar a Palavra para dispor de seus bens, sua parte menos importante. Desejaria sim, dedicar cada escrito.

Recostado na cama do hospital, vestia uma roupa estranha e verde e cheirava azedo, observava o triste fim das flores depositadas no vaso ao lado. Já sem ânimo, largou lápis e papel. Olhando a janela sem vista, enxergou-se caminhando, mochila nas costas e à frente só chão batido. Escalava encostas e invadia precipícios, estava sempre a caminho. Parou recuperando o ar em frente às altas torres de sua imaginação e, lá de cima, tirou a foto que ilustrava a capa de um de seus livros. Desceu ao mar de pés descalços e mergulhou. Do encalço à vista da cratera ativa, perspectiva invertida; a explosão recomeça: neve, rocha e lava. De volta à planície, a tristeza do perfume das rosas e a figura imprecisa daquela mulher na hora da poda. Olhou os olhos do primeiro conto, estavam lá, reconstruídos, também a inércia plácida dos dias na varanda e o ócio sadio das jogatinas. As histórias trágicas e heroicas de seu avô, contadas ao embalo das agulhas de sua avó.

Todos os retalhos que compunham a música de sua vida.

– “Senhor, senhor George…”

Jazia sobre seu corpo, seu último desejo: a folha timbrada em branco.

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