Escaladas

escaladas.jpg

por Cassiano Rodka

Uma escalada sempre começa com os olhos apontados para as alturas.
Eu sempre tropeço e invariavelmente ralo o joelho. Tenho uma coleção de cicatrizes que funcionam como um mapa de momentos tatuados na pele. Algumas mais profundas, outras mais superficiais, mas todas parte de alguma dessas minhas escaladas. Não vivo sem elas. Vou morrer subindo uma montanha. É a única maneira que me vejo deixando esse mundo. Sabe-se lá qual pico deixarei de conhecer, mas não é isso que importa, é a necessidade de sair do solo. Eu preciso ter lama nos sapatos, sangue por entre os dedos. Não sei de onde tiro essa força que me faz continuar, mas ela está sempre presente na sola dos meus pés, na palma das minhas mãos. Uma aparente caturrice que acaba se revelando como pedra fundamental. Eu preciso disso. De cada montanha, de cada pedra e de cada cicatriz. E o que parece irracional para muitos, me soa tão natural. A mudança de direções, os caminhos arriscados. Desafiar o vento, ignorar a gravidade. Tudo isso me preenche e me empurra. E quando chego ao cume, sinto o melhor e mais paradoxal dos sentimentos. Alegria e frustração de mãos dadas. Chegar ao topo é alcançar a vitória e, ao mesmo tempo, chegar ao fim. A satisfação é inigualável. Observo tudo ao redor, respiro o aroma que paira no ar e me conecto àquele espaço enquanto ele é só meu. Mas e aí, e depois? Faz parte de todo final dar sentido a um novo começo. E é para lá que eu sigo. Com lama nos pés e sangue nas mãos. E uma vontade incessante de aumentar minha coleção.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s