A verdadeira Tuesday Weld

por Cassiano Rodka

“A personalidade quer desenvolver-se a partir de suas condições inconscientes, e sentir-se viver enquanto totalidade, mas há, profundamente enraizada no homem, uma resistência a tudo o que lhe permitiria saber mais sobre si próprio…”

O inglês Stephen Coates interessou-se desde cedo pelas teorias do psiquiatra suíço Carl Jung que estudavam a relação do homem com seu inconsciente. Desde que descobriu Jung, passou a analisar seus sonhos e interpretar os seus significados. Em um de seus sonhos, Stephen encontrou-se cara a cara com o cantor dos anos 30 Al Bowlly no Piccadilly Circus em Londres. Ele sentiu que aquele sonho tinha algo de importante e o manteve em mente. Uma semana depois, teve um outro parecido, mas dessa vez, encontrava a atriz Tuesday Weld. Stephen chegou à conclusão que seus sonhos estavam lhe dizendo para formar uma banda. Do Al Bowlly, pegou a influência musical; da atriz Tuesday Weld, pegou o nome para o seu grupo. Começava aí a carreira de uma das bandas mais bacanas a surgirem nos últimos tempos.

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Stephen ouviu falar sobre Tracy Lee Jackson, fundadora da Dreamy Records, em uma notícia de jornal. Ela vendera seu carro para montar sua própria gravadora e ele simpatizou com a determinação da moça. Stephen telefonou para Tracy e entregou a ela um single contendo a música “I Love the Rain”. A música não demorou para alojar-se confortavelmente na cabeça de Tracy, que convidou o compositor a gravar seus primeiros EPs por sua gravadora. Depois desses lançamentos, surgiram algumas ameaças de processo devido ao nome da banda. Stephen teve que trocá-lo e, do topo de sua peculiar ironia, optou pelo nome The Real Tuesday Weld (“A verdadeira Tuesday Weld”).

O primeiro álbum saiu em 11 de setembro de 2001 (mesmo dia de um famoso atentado terrorista…) com o título de “When Psyche Meets Cupid”. O álbum apresentava o som que o próprio cantor passaria a chamar de “antique beat”, uma mistura de jazz clássico com música eletrônica, instrumentos barrocos com samples e sintetizadores. O resultado soa ao mesmo tempo moderno e antiquado – por mais absurdo que isso pareça. Através de músicas como “Anything But Love”, “L’Amour Et La Morte” e “Terminally Ambivalent Over You”, o álbum apresenta todo o charme e o sarcasmo do compositor em temas que tornariam-se recorrentes em seus trabalhos, como o amor e a morte. Os primeiros shows contaram com uma formação simples, apenas três integrantes: Stephen Coates, o guitarrista David Guez e o clarinetista e backing vocal Jacques Van Rhijn.

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Para seu segundo álbum, Stephen Coates resolveu envolver-se em um projeto ambicioso: faria a trilha sonora para o recém lançado livro de seu amigo, o escritor Glen Duncan. “I, Lucifer” era a autobiografia do Diabo e o compositor aproveitou o tema para escrever canções que falavam sobre o término de relacionamento mais antigo do universo, o de Deus com Lúcifer. O disco homônimo ao livro teve como destaque a divertidíssima “Bathtime in Clerkenwell” e a bela “The Ugly and the Beautiful”, que chamou atenção de alguns críticos de música graças à sua delicada melodia e seu clipe lynchiano. Nessa época, o The Real Tuesday Weld aumentou sua formação ao vivo, contando com Clive Painter, guitarrista e técnico da banda, Brian Lee, violinista e pianista, Jed Woodhouse na bateria e percussão, e Don Brosnan no baixo e backing vocals.

Em seu terceiro álbum, Stephen Coates decidiu regravar alguns de seus singles antigos e adicionar novas canções em um disco que chamou de “The Return of the Clerkenwell Kid”. O título se refere a seu apelido, que ganhou desde que se mudou para a região de Clerkenwell em Londres, onde diz brotar toda a sua inspiração, como fica claro em “At The House Of The Clerkenwell Kid”. O disco termina com “Goodbye, Stephen”, uma espécie de homenagem póstuma a si mesmo, onde o cantor narra o dia de seu enterro.

Em 27 de maio de 2006, a banda apresenta-se na Tate Modern, em Londres, ao lado de uma cantora brasileira chamada Cibelle em uma performance musical feita para acompanhar o filme “Dreams That Money Can Buy” do diretor surrealista alemão Hans Richter, que passou em um telão enquanto a banda tocava. O filme foi lançado posteriormente em DVD com a trilha alternativa do The Real Tuesday Weld.

Neste ano, o quarto álbum de estúdio acaba de sair do forno e, para os amantes da “antique beat” de Stephen Coates, é um prato cheio. Amor, morte, bebedeira e a irremediável paixão por Londres, em especial pela região de Clerkenwell em solos de clarinete e batidas espertas. “The London Book of the Dead” começa com a delicada “Blood sugar love”, onde uma voz sussura “Life is good when you feel in love” para logo depois trocar por “Life is good when you’re filled with blood”. Os destaques vão para a divertida “I Believe”, a insana “Cloud Cuckooland”, a fofa “Kix” e a irônica “I Loved London”. Para os amantes do jazz contemporâneo e da boa música criativa, The Real Tuesday Weld é uma excelente pedida.

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