Na selva

naselva

por Clarice Casado

Não viu quando ele chegou, e não viu quando ele partiu. Só sentiu o medo que lhe invadiu o corpo por completo. Distração. Tremedeira. Nunca passava por ali. Repetia para si, “Nunca passo por aqui, nunca passei por aqui”, terra desconhecida, terra de coisa nenhuma.

Só viu o rosto dele, percebeu a altura dele e sua corpulência. Percebeu sua própria fraqueza, sua impotência. Diante dele, nada era. Era alguém que ia alimentar sua família por algumas semanas, talvez só dias. Mas a família nem sabia.

Nos segundos que se passaram, só pode obedecer, levantou os dois braços, porque é isso que se manda fazer, pra que ele visse que não ia fazer movimentos bruscos.

Pelo vidro do carro, o via fazendo o gesto para que tirasse logo o relógio do pulso. No vidro do carro, via sua imagem refletida, via sua incapacidade e impossibilidade de reagir. Via-se, sem ver-se. Não mais reconhecia-se. Rendeu-se.

Quando se viu de novo sozinha, sabia que não tinha perdido apenas um relógio.

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