Sombra

sombra

por Clarice Casado

Sempre achei sombra um negócio fascinante. Lembro-me com ternura dos bichos que costumávamos inventar, eu, meus irmãos e meus pais, apagando a luz principal da sala e deixando apenas um abajur ligado, para que nossas mãos se projetassem na parede, surgindo, assim, as mais variadas e fantásticas criaturas de sombra.

Não lembro, porém, da primeira vez em que descobri que eu tinha uma sombra. Hoje imagino que deva ter sido algo assustador: de um momento para o outro, percebe-se que sai de nosso próprio corpo, projetando-se no chão, um vulto preto que move-se exatamente como nós! E, o pior de tudo, nos persegue. Não desgruda. Não sai de jeito nenhum. Pensando bem sobre o assunto, é uma coisa horrível. É só parar e reparar a sua sombra. Mas quem tem tempo, nos dias de hoje, para observar os contornos de sua própria sombra?

Respondo, imediatamente: pequenos de um ano e alguns meses. É mais ou menos por volta desse período da vida que dão-se conta de que não estão sós… Tenho observado minha filha em seus primeiros “debates” com a própria sombra: na primeira vez que a viu projetada no chão, parou, como que em choque. Mexeu-se para um lado, depois para o outro, tentou pisar “nela”, nela mesma, na verdade… Tentava pegá-la com as mãozinhas. Entrou em parafuso e começou a chorar, e depois começou a correr, como se quisesse fugir daquele monstro que tinha se grudado nela pra ficar! Eu, espectadora, não sabia se ria ou se chorava, e então decidi explicar, “Filha, esta é a sua sombra. Ela fica conosco todo o tempo. Não tem como pegar nela, nem tirar ela daí. É ela que nos dá coragem e força”. Não sei o que me deu de dizer isso, o fato é que ela me olhou assustadinha, pensando, “A mulher enlouqueceu, como assim, não tem como tirar ela dali, como assim, me dá coragem, se estou louca de medo desse negócio esquisito???”.

Fiquei com aquela questão da sombra aqui guardadinha, até que, pronto, a danada veio me procurar, em forma de literatura: li um conto do Realismo Fantástico com esta temática, em minha aula semanal de espanhol. Chama-se “La sombra de las cosas” e foi escrita pelo espanhol Fernando León de Aranoa, publicado na Revista El País, em 30/7/2000.

Surge-nos de maneira rápida na breve narrativa a figura de um menino que nasce sem sombra. O menino passa sérias angústias por conta deste “defeito de nascença”, e tem na mãe sua maior aliada. A mãe lhe consola ao responder sua pergunta sobre o motivo de não ter sombra, dizendo “Porque teu coração é tão grande e a tua alma tão sincera, que se pode ver através de ti”. O menino cresce arredio, um pouco quieto, até que, já adolescente, conhece uma menina em um dia nublado (isso é importante no conto: em dias nublados, não se pode ver as sombras, ou, ao menos, as vemos muito mais fracas) por quem se apaixona e com quem marca um outro encontro. Porém, tem medo de que o dia marcado seja ensolarado, já que, dessa forma, ela descobriria sua grave deficiência. E veio o dia, muito ensolarado. Ele vai encontrá-la, mas desiste de ficar antes que a menina chegue. O narrador nos revela, no último parágrafo do conto, que, se tivesse ficado, teria o menino descoberto que sua amada era também uma menina sem sombra.

Aprendi, ao interpretar os sentidos do conto na aula, que em psicanálise a sombra pode ter duas significações. Pode surgir como o lado obscuro de nossa personalidade, nossos instintos, o lado que conhecemos pouco, aquilo que está em nós, aquilo que surge em nós, mas sem muita explicação, ou, ainda, a sombra pode representar a coragem que existe em todos nós, mesmo que adormecida.

Talvez por instinto emanado da minha própria sombra, eu havia explicado à minha filha a mesma coisa, exata, sobre a coragem que nos dá a sombra e coisa e tal, mesmo sem saber. Só Freud explica(ria)…

Quero manter tudo isso bem guardado, para um dia contar à minha filha sobre o dia em que tentou espantar, a todo custo, sua coragem e seus instintos, e eu não deixei.

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