Vocação

vocacao.jpg

por Clarice Casado

Estudei em colégio de freiras durante meus primeiros anos escolares. Desde os seis até os nove anos. Um colégio tradicional em uma das mais importantes cidades do interior do Rio Grande do Sul, Cruz Alta. A cidade natal de Erico Verissimo.

Há pouco, eu discutia via e-mail com meu pai a respeito do significado da palavra vocação, em inglês e em português. Para mim vocação tem a ver com chamado, com dom, com algo muito especial que você sabe fazer bem. Algo para o qual você foi predestinado a fazer ou viver. “O Carlinhos tem dom para música”, “A Amélia tem vocação para sofredora”, é comum ouvirmos frases como essas, em todo o lugar.

Em realidade, vocação é diferente de dom. Vocação é “chamado”, e dom é “presente”. Em inglês, a palavra dom é gift, que também significa “presente”. E a palavra vocação é call, que também significa “chamado”. Alguém que é “vocacionado” para algo é alguém que nasceu para aquilo, para aquele ofício, para aquela vida.

A essas alturas, o leitor já deve estar voltando ao início da crônica, relendo o primeiro parágrafo e pensando “O que diabos essa história de colégio de freiras tem a ver com todo o resto?”, e eu respondo, “Leitor, passe para o próximo parágrafo”!

Toda a discussão sobre a etimologia de “vocação” remeteu-me automaticamente ao passado, quando, com seis ou sete anos de idade, ouvi pela primeira vez a palavra. Uma freira do colégio, professora de religião, explicava a nós, um bando de alunos ansiosos pelo sinal que avisasse que era já hora do recreio, que, se um dia Deus quisesse que nos tornássemos padres ou freiras, ouviríamos um chamado, uma “vocação”.

Pânico!!! Ouvi aquilo, e fui tomada de um dos maiores medos da minha vida, “Como assim, vou ser chamada para ser freira? Uma voz do além vai surgir e vai dizer, Clarice, você deve ser freira, minha filha…!”, aquilo não poderia ser verdade, e se eu não quisesse ser freira, será que eu teria o direito de contestar, de dizer “Senhor Deus, desculpe-me, mas, sinceramente, eu tenho só sete anos e ser freira não é exatamente o que eu planejo para minha vida, porque eu gosto de brincar, de ter roupas bonitinhas, de passear bastante, de ir à praia, de ver minha família e amigos quando eu quiser, não, Deus, não, não me chame!!!”. Sim, foi isso que se passou na minha cabeça de criança, obviamente.

Fico imaginando o que se passou nas cabecinhas de todos os outros coleguinhas, pobrezinhos! E o pior foi que fiquei um bom tempo morrendo de medo da tal “vocação” que, pelo que tinha explicado a freira, poderia ser a qualquer momento, sem nenhum aviso, eu poderia estar tranquilamente vendo o desenho da Penélope Charmosa na televisão, ou fazendo a lição de casa, ou lendo revistinha da Mônica, ou brincando de “polícia e ladrão” com meus irmãos, mesmo brincando de “polícia e ladrão”, puxa vida, a voz poderia vir e dizer “Não, minha filha, você nasceu para ser freira, e não para prender bandidos”. Que loucura.

Eu não tenho a mínima ideia, obviamente, de onde esteja essa gentil senhora que um dia ensinou-me de maneira tão macabra o significado da palavra vocação, mas, sinceramente, se eu a encontrasse hoje, eu perguntaria: “a voz de Deus é de homem ou de mulher?”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s