Fora de controle

foradecontrole

por Clarice Casado

A única coisa pior que ter tudo sob controle é, de repente, não mais que de repente, perder por completo o controle.

Julgamos estar super seguros e felizes quando temos as coisas totalmente sob controle: não, enganamo-nos. Ter todo o controle é ter a falsa impressão de que está tudo bem. Ter todo o controle é pensar que se tem um poder que não se tem. O motivo? É impossível ter tudo sempre sob controle. E quem quer sempre ter controle sobre tudo sofre quando perde todo esse controle abruptamente. Mesmo porque, muitas vezes, descobre-se que a perda do controle causa fraqueza e cegueira momentâneas. O sujeito que quer ter sempre tudo sobre controle não sabe lidar bem com a decepção de perder de uma hora para outra esse controle.

Sou um desses sujeitos, sim, desses mesmos que descrevi no parágrafo acima. Nunca percebera isso, até esta semana. Comecei a me dar conta que quero ter tudo programado, tudo planejado, que tudo ocorra exatamente como está na minha agenda no celular, nos alarmes, nas minhas notas, nos diversos caderninhos que espalho pelo meu quarto, sala, carro e cozinha, nos post-it pelo meu espelho, na minha cabeça que nunca para, nunca para, nunca para de funcionar.

Tudo isso para me deixar tranquilinha, sem ter que sequer aventar a hipótese de algo saia errado, de que as coisas não funcionem exatamente da maneira que planejei no início da semana ou do dia. Tenho a clara sensação de que, se não tomar nota de algo (não interessando o grau de importância do compromisso), esquecerei, e isso trará minha completa ruína…

Perdi a chave do meu carro esta semana, no shopping. Sumiu, de um momento para o outro. Eu estava indo embora, já havia até validado meu bilhete do estacionamento, e, quando fui procurar a chave na bolsa no exato bolsinho onde sempre a coloco, não a encontrei. Já comecei a entrar em pânico, justamente por saber que sempre a coloco (ou colocava, porque a vida me mostrou que as pessoas podem esquecer coisas…) ali no tal bolso. Nada da chave. Vasculhei a bolsa inteira, inclusive me sentei para revirá-la do avesso, sob os olhares discretos de alguns curiosos. A essa altura, eu já praguejava sozinha, não acreditando naquele absurdo que nunca me acontecera antes na vida. Já tinha perdido chaves de casa, mas jamais do carro! Procurei também em uma sacola de loja que estava carregando, só por precaução: nada. Resolvi caçá-la pelo shopping. Fui ao setor de achados e perdidos: nada. Fui então aos dois lugares em que havia estado, a loja de pijamas pros meus filhos e um café. Nada. Nada. Ninguém encontrava. Apenas anotavam meu telefone, para um contato no caso de encontrarem. Meu dia já não tinha sido dos melhores, e ainda mais aquela… Foi nesse momento que percebi a tal coisa da perda do controle: eu estava ali, presa no shopping, com meu carro esperando no estacionamento, e minha chave com paradeiro desconhecido, e não podia fazer absolutamente nada, a não ser aceitar a situação e tentar consertá-la, mesma estando ela fora do meu planejamento do dia.

A sensação de perda do controle repentinamente é terrível. Avassaladora. Uma simples chave. Quem diria? Como eu, a mulher que tudo planeja, tudo prevê, tudo anota, podia perder a chave do carro no shopping? Eu não aceitava aquele absurdo! Mas tive que aceitar, porque o tempo estava passando, e eu precisava resolver o que fazer. E resolvi, claro. Sob pressão de uma situação não anotada, não prevista, não planejada, louca para sentar e chorar, consegui reunir forças, chamar um táxi, voltar para casa, pegar a chave reserva na gaveta, entrar de novo no táxi, retornar ao shopping e enfim, depois de quase duas horas, pegar meu carro e voltar para casa. Quando entrei no carro, caí num pranto convulso. A minha “torre de controle” havia desabado, bem debaixo do meu nariz, e eu não pude fazer nada para contê-la. Só me restou aceitar minha própria falibilidade.

Quando cheguei em casa, fui abraçar e beijar feliz os meus filhos, que me esperavam, ansiosos. Fui então dar a eles os pijaminhas que havia comprado na tal loja. Ao tirar todos os pijamas da sacola, logo pude ver que me encarava, quieta e um pouco assustada, a minha chave, pendurada no chaveiro de abóbora de Halloween que tinha ganho do meu filho. Eu não podia acreditar no que via…! Eu havia procurado naquela sacola, mas não tinha encontrado a pobrezinha. Provavelmente por conta da cegueira momentânea causada pela repentina perda de controle. Inaceitável. Mas, naquele exato momento, só o que consegui fazer foi rir. Rir muito, aliviada, mostrando a chave aos meus filhos e à babá, que riram também.

Não tenho ideia de como a chave foi parar lá, porque não lembro de a ter colocado na tal sacola. Se chaves tivessem vida própria, eu poderia jurar que ela foi parar lá sozinha. Mas, como sei que isso é impossível, tenho que aceitar a ideia de que fui eu quem resolveu “quebrar o protocolo” e colocá-la naquele lugar não previsto, não anotado, não planejado. Fui eu quem provocou a situação que deixou tudo fora de controle por duas horas, naquela tarde de quarta-feira tão normal, tão planejada, e, ao mesmo tempo, tão imprevista. Fui eu quem perdeu o controle sem saber que o controle estava, o tempo todo, junto comigo.

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