Meninos e meninas

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por Clarice Casado

Quando o Renato Russo escreveu “Meninos e Meninas” ele não queria dizer nada do que eu vou dizer aqui neste texto.

As meninas não gostam dos meninos e os meninos não gostam das meninas. E agora está todo mundo pensando que estou falando daquelas rixinhas de crianças, ou seja, daquele ódio visceral que os meninos nutrem pelas meninas e vice-versa, durante alguns anos de suas vidas.

Eu acreditei piamente nisso durante muitos e muitos anos, até que nesta semana eu ouvi de uma amiga uma reclamação de seu filho de seis anos a respeito das meninas de sua escola, dizendo que eram fofoqueiras, intriguentas, puxa-sacos e vários outros lindos adjetivos. Isso veio de um sincero e inocente menino de seis anos. Mas poderia muito bem vir de homens adultos, de 20, 30, 40, 60, 70 anos. Eles acham mesmo isso das mulheres. Acham com seis, com quinze, com vinte e sete, com trinta e quatro, com quarenta e oito, com sessenta e lá vai cacetada… Acham e acharão sempre. Talvez porque seja mesmo verdade.

Ah, te peguei, leitor: provavelmente você estava achando que eu ia começar com um papinho pró-homens contra a minha própria classe, mas, não, já fiz isso em outros textos. Eu gosto mesmo de falar e refalar disso, mas hoje a coisa é outra.

Assim como os meninos de seis anos tem aquele ódio absoluto de toda a coisa pequena de saias e cabelos mais compridos que os deles, aquelas cabeludas também os odeiam com veemência: eles são uns porcos, dão pum e arrotam a toda hora, falam alto, lutam até por um lápis quebrado, têm códigos de honra incompreensíveis pelo sexo oposto, essas coisas todas. E não só as pequenas cabeludas acham assim: as grandes também. Você sabe disso, leitor. As mulheres de sete, dezesseis, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e nove, cinquenta e cinco, sessenta e lá vai cacetada também têm as mesmas reclamações sobre os companheiros do sexo oposto! Eternamente…

Pois bastou que eu ouvisse o comentário do filhinho da minha amiga para concluir algo, que, penso, é irrebatível: todos pensamos que o ódio mortal entre meninos e meninas acaba no exato momento em que você sente vontade pela primeira vez de dar um beijo cinematográfico no seu amigo do sexo oposto, ou seja, quando está com uns onze, doze, treze anos, dependendo da sua evolução sexual. Pois esta que vos fala pensa o seguinte: o ódio nunca acaba, e nunca acabará. Brigaremos e criticaremos o sexo oposto para sempre. Nunca seremos capazes de realmente “gostar” da pessoa do sexo oposto a quem deveríamos amar. O que nos une é algo animal, instintivo: paramos de brigar aos doze anos porque nossos hormônios dizem, “Pare, agora, você precisa dar uma trégua!!!”.

A criança pequena (isso eu já falei mil vezes em outras oportunidades) é sincera, diz a verdade: “Eu odeio as meninas/meninos!”. Nós, adultos, falsos e covardes, não conseguimos dizê-la. Não conseguimos, porque o animal dentro de nós é mais forte. Precisamos acasalar. E, nesse momento, esquecemos o ódio e fazemos o que temos de fazer. Muitas vezes, o acasalamento vai adiante, faz-se o ninho, têm-se os filhotes, e cada um dos sexos, separadamente, consegue dar amor incondicional às frágeis criaturas. O que acontece é que apenas achamos que amamos alguém do sexo oposto: na verdade, o odiamos!

O Renato Russo que me perdoe: eu não gosto nem de meninos e nem de meninas… E tenho dito!

Reli tudo, e acho que estou ficando louca. Não me leve a mal, leitor. Isso é apenas literatura pós-noite mal dormida.

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