Carmine

carmine

por Clarice Casado

Ao incomparável Carmine Avena Jr.,
como não poderia deixar de ser

Pronuncia-se Cármine, assim mesmo, com ênfase na primeira sílaba. E é um nome próprio, mesmo que você não conheça ninguém com um nome igual a esse.

Não é tarefa fácil escolher um nome para uma criança, especialmente se essa criança vai ser seu filho ou filha. Você começa a pensar nisso enquanto ainda é pequeno, (especialmente as meninas), sonhando com o dia em que terá seu bebê e poderá batizá-lo. Você terá esse poder, só não sabe quando. Talvez você já tenha passado por isso e certamente vai entender exatamente do que estou falando aqui.

Mas o fato é que você um dia conhece alguém super especial e acaba decidindo que quer passar uma vida ao lado daquela pessoa, dividir alegrias e tristezas, coisa e tal, e, em alguns anos, você resolve que só vocês dois não bastam: um terceiro membro pequeno e gorducho e chorão precisa entrar em cena, para que vocês tenham o prazer de voltar a ver desenhos na TV e saber que o melhor amigo do Bob Esponja é o Patrick Estrela, e que os dois passam metade do desenho rindo da cara do Lula Molusco. Mas, antes disso, você terá que escolher um nome para o terceiro membro do clã, e, acredite, que coisa mais difícil! Um nome determina o destino de uma pessoa.

Um dos meus melhores e mais queridos amigos foi batizado de Carmine, um bonito e diferente nome de origem italiana. Foi uma homenagem a seu pai, nascido no “país da bota” (é inevitável, sempre que penso na Itália, me vêm à mente não só vinho, gôndolas e Marcello Mastroianni, mas também aquele mapa em forma de uma botinha).

Meu amigo conta que sempre adorou seu nome, mas “sofreu” boa parte da infância (e às vezes sofre ainda hoje), tentando explicar às pessoas a pronúncia correta de seu nome. Ele diz que na escola muitos professores o chamavam Carmíne, acentuando bem o “i”, e, quando ainda não o conheciam no primeiro dia de aula, na hora da chamada, perguntavam, “A Carmine está presente?”. Pensavam que ele era menina! Pobre Carmine…!

Soletrou seu nome muitas vezes na vida, e ainda continua soletrando. Entendo bem o que é isso, porque meu sobrenome paterno é Dall’Agnol (pronuncia-se Dallãnhól), de origem italiana, mais precisamente do norte da Itália, de uma região chamada Vêneto. Sei muito bem o que é passar uma vida soletrando…! A vantagem é que você fica craque na coisa: “Seu nome, senhora?”, e eu vou, “Clarice… Vou soletrar o sobrenome, tá? D-a-l-l, apóstrofo…”, e a pessoa me interrompe, “Como?”. O maldito do apóstrofo sempre foi e ainda é um problema, a maioria das pessoas falantes do português, obviamente, não sabem e não têm a menor obrigação de saber o que seja a virgulinha suspensa em uma letra. Eu só consigo me lembrar do apóstrofo sendo usado na língua portuguesa em “copo d’água”. O apóstrofo indica a omissão de uma letra, para facilitar a pronúncia de uma palavra ou expressão. No caso do meu nome, houve a omissão da letra “a”, de Dalla Agnol (“dos Anjos” ou “dos Cordeiros”, há controvérsias sobre o significado – não é isso, Pai?), acabou tornando-se Dall’Agnol.

E eu continuava soletrando, depois de explicar que o apóstrofo “é como uma virgulinha em cima”, “A” maiúsculo, “G-N-O-L”, “Ah, senhora, Dalaguinol, é isso? Que diferente…”. E eu parava por ali. Às vezes, quando estava com muito bom humor, corrigia a pronúncia da pessoa, que ficava sempre feliz em dizer o nome certo. Hoje, na era do computador, sinto-me totalmente livre do apóstrofo, nem o menciono mais. Sigo num rápido D-A-L-L-A-G-N-O-L, e seja o que Deus quiser.

Mas o Carmine, o herói desta crônica, que, em realidade, é chamado por todos os amigos de Júnior, dia desses comentou comigo como sua mãe ficava furiosa quando estranhos não entediam o nome dele, e ela tinha que soletrá-lo! Contou também que, ainda pequeno, não entendia tal fúria da mãe; só hoje entende. Eu disse a ele que a entendia perfeitamente, porque fazia a mesma coisa quando não entendiam meu sobrenome, e hoje ainda fico brava, certas vezes, quando pobres criaturas inocentes não entendem o nome do meu filho, Vito, também de origem italiana. “Ah, Vítor, que nome bonito…”, “Não, é Vito, V-I-T-O”. Até o próprio Vito já começou a corrigir as pessoas! Ora, cada um tem o direito de escolher os nomes que quiser para os filhos, mesmo que sejam estrangeiros, pois uma grande parte da população brasileira tem ascendências europeia, asiática, do oriente médio, etc. E esse é o motivo da nossa fúria, temos que ser compreendidos nesta séria questão de identidade! Por outro lado, ninguém pode escolher o sobrenome, como é o meu caso, e acaba sofrendo com seu destino de “soletração constante e eterna”! E, realmente, às vezes é bem irritante ter que soletrar tanto.

Assim, como eu dizia no início desta crônica, escolhemos o nome do filho e, por consequência, determinamos parte de seu destino: nos casos do Carmine e do Vito, passar a vida toda soletrando. No caso do Júnior, ainda precisa explicar, às vezes, que ele é um homem, e não uma “Senhora Carmíne”!

Nomes diferentes, originais ou desconhecidos, isso não se pode negar, possuem um charme irresistível. Seus “proprietários” são uns sortudos que, desde pequenos, sentem-se especiais. Defendem seus nomes como se fossem a sua própria honra. Não são mais um João, Maria ou José. São um Vito, um Carmine. Serão para sempre únicos.

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