Tem alguma coisa na água da Bélgica…

por Cassiano Rodka

Deve ter. Ou na cerveja, afinal o país tem mais de 450 tipos diferentes de cerveja. Um convite inegável à boemia! E a boemia sabe muito bem dar à luz grandes artistas. Atualmente, alguns desses nomes conseguiram chamar a atenção da mídia mundial, o que não é fácil. É duro ser belga. Você pode lançar uma pá de discos bacanas e ninguém ouvir. Mas, de cantinho, bandas como Soulwax, Vive La Fête, Hooverphonic e 2 Many DJs conseguiram fazer barulho o suficiente para expor seus trabalhos ao resto do mundo. Quem abriu timidamente esse caminho foi o pessoal do dEUS, que é uma espécie de Kevin Bacon musical belga, ou seja, se você é músico e nasceu na Bélgica, em alguma momento você tocou com algum membro do dEUS. O que chama constantemente minha atenção nos artistas de lá é a criatividade. Talvez o próprio fato de não se ter os olhos do mundo voltados para o seu trabalho dê uma liberdade os artistas, que compõem sem se amarrar a estilos ou modismos.

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O belga que mais recentemente invadiu meus ouvidos e se instalou por lá foi um cara chamado Daan. Ele começou a carreira em 1998, quando lançou o primeiro álbum de sua banda, Dead Man Ray, uma parceria com Rudy Trouvé, um ex-membro do (adivinha!) dEUS. No ano seguinte, Daan Stuyven lançou seu primeiro trabalho solo, o excelente “Profools”. O título é um trocadilho com o nome do software usado por ele (e 98% dos músicos de hoje em dia) para gravar o disco, o Protools. A faixa “Boots” abre a seleção de músicas, que misturam rock de estrada, eletrônico datado, pitadas de jazz e letras bacanas e despretensiosas. Em “Simple”, ele dá várias dicas bem humoradas de como não se estressar e manter as coisas simples: “don’t recognize a dealer with a broken face / don’t wash the cabbage if you’re in love with the caterpillar / don’t cross waters without a bridge / don’t cry for me nor argentina” (não identifique um traficante que tem a cara machucada / não lave a alface se você está apaixonado pela lagarta / não atravesse rios sem uma ponte / não chore por mim, nem pela Argentina).

A influência eletrônica de Daan se mostra mais presente a partir do segundo álbum do compositor, “Bridge Burner”, de 2002. O disco tem várias faixas dançantes que remetem a artistas distintos como Daft Punk, Kraftwerk, Garbage e The Real Tuesday Weld. O bacana é que Daan encurta a distância entre pólos opostos, produzindo uma música que consegue soar ao mesmo tempo moderna e antiquada, cool e kitsch. O single “Swedish Designer Drugs” colocou Daan em rotação nas rádios belgas pela primeira vez e criou uma certa expectativa em relação ao seu álbum seguinte. Em 2004, as lojas recebiam “Victory”, um álbum bem mais direcionado ao eletrônico datado. Sonoridades oitentistas, com arranjos que, por vezes, riem de si mesmo. Há um claro posicionamento de não se levar muito a sério, fazendo músicas para animar as pistas. Foi o que fez a faixa “Housewife”, que conseguiu garantir seu espaço nos clubs belgas. O disco não é tão criativo quanto os anteriores, mas firma a vontade do músico em se tornar um artista de música eletrônica.

Em 2006, Daan volta à ativa com “The Player”, um álbum eletrônico criativo que leva sua proposta musical ainda mais longe. São belas canções, que fundem sonoridades atuais com timbres que ninguém ousaria tirar do túmulo. A faixa “Type Ex”, primeiro single do álbum, deixa clara uma das influências de Daan nessa empreitada musical. Ele pega de onde o compositor francês Serge Gainsbourg parou no final dos 80. Um eletrônico kitsch, com letras às vezes geniais, às vezes bobas, com instrumentais que ignoram qualquer tendência atual, como demonstram os singles “The Player” e “Promis Q”, que têm sido bem recebidos nas paradas belgas.

Ponha as mãos nas músicas do cara da sua maneira preferida (Soulseek, Emule, Torrent, Amazon, etc), abra aquela cervejinha de cereja e tente entender o que se passa afinal na cabeça desses belgas.

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