Limbo

limbo

por Clarice Casado

Um dia me disseram que bebês que morriam antes de serem batizados iam para o Limbo. Eu sempre tive medo do Limbo. Medo, Medão. Quando criança, não tinha medo do Inferno, tinha medo da porcaria do Limbo. Porque o Céu era o Céu, todo azulzinho e lindo. E o Inferno era o Inferno, todo cheio de fogo e chamas e todo vermelho que só, coisa mais horrorosa! Mas o Limbo não era muito definido, aparentemente era um lugar esquisito para o qual ninguém tinha uma explicação perfeita, só se imaginavam as almas lá sofrendo de alguma maneira, sofrendo, sofrendo. Aquela sensação de desconhecido, de coisa meio inesperada, é que me dava um medão. Medo que, de regra, eu não precisaria ter, pois era batizada e não planejava suicidar-me. Sim, tinha também uma história de que os coitados dos suicidas também iriam para lá. Quer dizer, além do pobre do sujeito sofrer em vida e resolver aniquilá-la com as próprias mãos, ainda não ganhava o Reino dos Céus ao morrer: era imediatamente enviado para o meio-termo, o Limbo. Era uma ideia muito louca que nunca aceitei, porque detesto meio-termo. Ou vai ou fica, caramba! Ou dá ou não dá, ou quer ou não quer, ou é ou não é, te decide! Meio-termo, não! Vai ver foi aí que começou a minha birra com a Igreja Católica e seus mandamentos.

Mas, qual não foi a minha surpresa quando, há algumas semanas, leio na capa de um dos jornais de maior circulação e mais respeitados de São Paulo algo dizendo que a Igreja Católica havia “chegado à conclusão” ou “decidido” que o Limbo não existia mais (Ebaaaaaaa!!!!!)! Fiquei entre feliz e perplexa: feliz, porque não preciso mais ter medo (na verdade, o medo de infância ainda me habitava…), o Limbo não existe mais!! E perplexa, pensando, mas, como é possível que os caras simplesmente “decidam” que o Limbo não mais existe, de uma hora para outra? Que prova concreta teriam? É claro, não há provas de que não exista, porque também nunca houve provas de que existia!!! Assim, fica muito fácil: alguém um dia chega lá, e fala, “Olha, pessoal, não há mais Limbo, ok? Ou é Céu ou é Inferno, portanto, vamos tratar de se comportar bem, as chances de salvação diminuíram terrivelmente…”. Para mim, essa notícia da extinção do Limbo foi mais maluca do que todas as maluquices da Igreja Católica juntas, bem conhecidas: proibição da anticoncepção, da camisinha, do homossexualismo, do divórcio, blá, blá, blá… Ninguém aguenta mais ouvir falar nisso, poxa vida.

Bueno, mas, fui batizada, portanto, “oficialmente” sou católica. Como boa parte dos brasileiros, aliás. Mas não sou daquelas que dizem, “Ah, sou católica, vou à igreja todos os domingos, mas sempre usei camisinha e pílula, e agora me divorciei porque descobri que sou lésbica e vou casar com a minha namorada, mas acho que não tem problema, né?”.

Não, escolhi ser coerente: eu sou católica porque fui batizada na Igreja Católica, meus pais assim escolheram, como o escolhem a maioria dos pais brasileiros. Porém, hoje não mais pratico a religião, e “briguei” com a Igreja Católica definitivamente no dia em que quis batizar meu filho escolhendo um padrinho de quatorze anos que foi autorizado para tanto (fazendo curso de batismo e toda a papagaiada exigida), para no dia da cerimônia ser desautorizado pelo padre, em público, por não ter ainda os exigidos quinze anos. Ou seja, escolho o padrinho para meu filho como um ato de amor, escolho alguém de quem muito gosto e em quem muito confio, para substituir-me em caso de morte, certo? Essa é a ideia do padrinho, de acordo com a religião católica. Mas, não, teria que ter escolhido qualquer outra pessoa (mesmo que nela não muito confiasse!) apenas em razão de sua idade? Meu inocente compadre acabou tendo der ser “assistido” por uma pessoa mais velha, para que pudesse batizar meu filho, e batizou. Essa foi uma loucura que não engoli. E assim decidi não batizar minha filha, que, agora, graças à extinção do Limbo, não é mais um “pobre bebê excluído, indigno do Reino dos Céus”! Por essas e por outras da Igreja Católica, sou favorável a que os pais deixem que seus filhos escolham, por vontade própria, quando já maduros forem, suas próprias religiões, ou não escolham religião alguma.

Os brasileiros, segundo a brilhante mente inquieta do meu marido, têm essa “flacidez moral”, ou seja, querem se assegurar por todos os lados: vão à Igreja, para garantir seu lugarzinho no Céu, mas também usam camisinha (no que estão certíssimos, vamos deixar isso muito claro desde já), para não correr o risco de doenças ou até de engravidar.

Minha opinião: a Igreja Católica não vai mudar suas regras retrógradas e imbecis, sem que haja uma mobilização mais radical do povo. Mas nada de passeatas, discursos, queima de fotos do Papa, discussões inúteis na TV (como a que assisti na MTV na semana passada, “É possível ser gay e católico?”), nada disso adiantará. Assim, a melhor solução: seja coerente e abandone a Igreja. Se não concorda com as regras, deixe de ser católico. Use camisinha, claro, mas pare de ir à missa. Boicote! Reze em casa, não comungue com essa loucura toda! Isso, esse boicote (que, diga-se de passagem, já vêm acontecendo há muito tempo) creio eu, poderia fazer com que “Eles”, os homens com as batinas mais poderosas, acordassem e, aí, sim, tentassem começar a mudar as regras e mandamentos da religião católica.

Reflexão feita nesta semana pós-vinda-do-Papa, não me resta mais nada a não ser terminar, não sem antes pensar, em voz alta, em alta escrita: como pode alguém ser feliz vindo a São Paulo sem poder: ir ao Gero, ao Fasano e ao Figueira, se hospedar no Maksoud, no Unique ou no Hyatt, passear na Oscar Freire e no Iguatemi, flanar pela Cultura e pela Fnac, comer pastel de feira, ir dançar na Disco, jogar conversa fora no Pirajá, dar um pulinho no Tomie Ohtake e no MASP, ouvir boa música no Bourbon Street, comer um docinho da Cristallo, andar de bicicleta pelo Ibirapuera, sentindo aquela brisinha no rosto, liberdade… Como alguém pode viver uma vida… no Limbo? Ah, isso, eu não consigo entender…

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