Carta de um parente desconhecido

cartadeumparentedesconhecido

por Clarice Casado

Foi-se o tempo em que cartas com endereço errado voltavam para o remetente ou eram entregues em mãos pela pessoa que havia recebido por engano para o seu real destinatário.

As cartas modernas, os nossos queridos e-mails, não têm envelope e nem selo. Voam por um espaço chamado de cibernético. Voam, não, só um instante: trafegam. É, trafegam creio ser a melhor denominação, o melhor verbo a ser usado. Já pensaram nisso, leitores? Errando um endereço, outra pessoa pode receber seu e-mail e abri-lo sem o menor pudor. A menos que tenha medo de abrir e-mails de remetentes desconhecidos. Não há mais privacidade em correspondência. Ah, certo, há as senhas, os códigos, coisa e tal, o que pode proteger os sujeitos de enxeridos em geral (família, amigos, colegas de trabalho, chefe). Porém, nada nos protege contra pessoas desconhecidas, que estão por aí, pelo mundo cibernético, pelo espaço cibernético e que podem, por acaso, receber um e-mail por engano, e, sim, abri-lo! Porque nada o impede de fazê-lo! Não há regras que disponham sobre violação de correspondência na Internet. E não acho que isso seja muito fácil de se fazer, não. Desconheço regras de privacidade na Internet. Mas tenho certeza de que não há como impedir que cartas eletrônicas enviadas por engano sejam abertas – também por engano.

Minha certeza tem fundamento. Há algumas semanas, recebi um e-mail de um sujeito com o meu sobrenome. Ok, pensei, o sobrenome eu conheço, meu velho e bom patronímico italiano, de difícil pronúncia e grafia para os falantes de português, que tantos “problemas” e risos me causou ao longo desses meus trinta e três anos de vida. Abri o e-mail do cara, quase que automaticamente, já que vi meu sobrenome e nem percebi que era de alguém que eu não conhecia o nome, pensei ser de alguém da família. Quando comecei a ler, percebi ser de um desconhecido. Ele tinha um tom leve e amigo, muito educado e polido. E surpreendeu-me:

“Prezada Clarice, olá!
Há algum tempo que venho recebendo e-mails seus. Temos o mesmo sobrenome, mas creio que você esteja me mandando essas mensagens por engano, deve haver alguma coisa errada no endereço que você está digitando. Possivelmente, a pessoa que deveria estar recebendo as mensagens e as fotos não as esteja recebendo, verifique para ver o que há de errado.
De qualquer maneira, gostaria de aproveitar para dizer que este que recebi hoje deixou-me especialmente emocionado. Como estão grandes as suas crianças! E que lindos! Você e seu marido são pessoas de sorte! Faz algum tempo que acompanho esses e-mails, e parece que conheço todos vocês, apesar de não conhecê-los, que coisa estranha… Fiquei sem saber o que fazer, com vergonha de responder a você. Fico feliz em saber que estão bem, trabalhando, estudando, divertindo-se, com crianças lindas e saudáveis. Você fala de tantas pessoas e conta tantas coisas, me desculpe, não pude resistir e tive que ler as mensagens algumas vezes. Parecem ser uma família tão feliz… Parabéns por serem assim tão unidos e amigos, em um mundo cada vez mais desunido e violento. Desculpe-me mesmo. Me despeço por aqui, sabendo que provavelmente nunca mais terei notícias de vocês.
Abraço,
X

(obviamente preservarei a identidade e o e-mail do parente desconhecido).
Meu parente desconhecido surpreendeu-me porque acabou lendo por acaso a primeira mensagem que lhe enviei por engano, e seguiu lendo mais algumas por pura curiosidade, que é mais do que natural na raça humana, ainda mais se o remetente tem o seu sobrenome. E a natureza do e-mail é esta mesma, uma carta que chega em sua caixa postal, que você abre, e a lê com muita facilidade, sem ter de abrir envelopes e preocupar-se com regras de privacidade. Ele vem, e você o lê. É simples. Foi o que aconteceu com esse sujeito. Acabou por interessar-se pela vida da suposta parente desconhecida. Um dia, então, resolveu avisar-me do engano. Correto foi ele. Eu respondi de maneira breve, agradecendo pelo aviso. Não comentei mais nada. Porque temos, hoje em dia, esse medo, essa desconfiança, essa coisa que nos impede de querer saber mais sobre a vida alheia.

Logo fui verificar qual era o erro de digitação no e-mail, e realmente, eu mantinha em minha agenda eletrônica o endereço errado de meu tio. Uma letra alterou o endereço e fez com que “X” passasse a receber os e-mails que eram destinados ao meu tio e, por consequência, passou a saber notícias de nossa família, que, de um modo ou de outro, também era dele (?)! Consertei o erro, e meu tio passou a receber direitinho as mensagens.

O parente desconhecido, educado, nunca mais se comunicou comigo. Percebeu que dei fim àquele “relacionamento”, de maneira não menos educada. Sem ressentimentos.

Tudo explicado e resolvido, fico pensando: será ele que sente saudades de nós?

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