O jovem

jovem

por Marcella Marx

… ele piscou, pensando se naqueles breves instantes de cegueira teria perdido algum novo fato daquela cena tão intrigante. Olhava a todos a sua volta e percebia cada súplica, cada lamento e dor. Ao mesmo tempo, sentia de alguns descaso e certo ar de superioridade, sentimentos com os quais satisfazia sua fascinação pela alma humana.

Havia caminhado um dia inteiro em busca daquela cena, anunciada aos quatro cantos pelos viajantes apressados e mensageiros, que cortavam as longas distâncias levando a notícia da vinda do milagroso. Ele observava atento aos detalhes e gestos e à formação da grande fila aos pés daquele, com olhar de ancião e corpo de jovem. Num caderninho escondido sob as vestes, ele fazia rabiscos de seu esboço. E quando indagado por uma criança sobre o que fazia, brincou, dizendo que previa o futuro com papel e carvão. A criança riu-se e correu satisfeita.

O jovem homem, incansável, ali permaneceu até que a fila terminasse e a multidão fosse dispersa. Sentado em uma pedra finalizava seus últimos inscritos e preparava-se para partir, quando o jovem velho veio com ele a ter. “No que te debruças com tanto empenho?”. “Preparo um retrato”, respondeu o jovem. “Sim, isso eu já sabia”, retrucou o jovem velho. “Mas o que viste que com tanta vontade deseja retratar?” O jovem, então, olhou-o nos olhos e disse: “Retrato o futuro dos homens”.

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