Escova de dentes

escovadedentes
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Fazia já um tempo que não entrava ali, naquela casa que antes parecia enorme, cujos sofás eram como camas elásticas, onde ele e seus irmãos passavam horas imaginando histórias de acampamentos, de florestas e perigos e coisas de criança que são tão boas por um tempo e depois se desfazem pelo próprio tempo e ficam em algum lugar da memória e do próprio tempo, como uma imagem embaçada e em câmera lenta. Como um sonho, talvez.

E então aquele cheiro de coisas conhecidas e idas tão presentes na mente, no coração, nas narinas.

A vó velhinha que na verdade foi sempre velhinha, agora o recebe mais velhinha ainda (porque agora é duas vezes avó: é bisavó) de braços abertos e com muita comida, sempre muita comida. Sempre houve comida, e a comida enche os olhos e aquece, é amor em estado bruto: o estômago conquistado.

E na casa mora também a tia, a tia tão fechada em seu próprio mundo, mas também tão aberta a tudo, por ser criança ainda, uma criança em um corpo adulto (vai ser sempre criança, vai pensar sempre como criança, vai morrer criança, porque uma doença genética assim o quis), e por ser para sempre criança, vai ser para sempre feliz, porque não vai preocupar-se, nunca, nunca, com nada, nada. Ou outros à volta preocupam-se, vão para sempre preocupar-se com seu destino, principalmente a velhinha, sua mãe, sua eterna guardiã.

Mas então ele está ali, novamente, após tanto tempo, levando os filhos para visitarem a velhinha e a tia, para que elas desfrutem da juventude plena e absoluta das crianças, para que preencham, nem que por algumas horas, suas vidas solitárias e ao mesmo tempo tão cheias de amor. Para que se animem, para que sintam, para que sorriam, para que tirem a dor de seus corações sofridos, marcados pelo tempo passado e pelos olhares julgadores e falsamente solidários das pessoas.

E ele então resolve ir ao banheiro, ao banheiro onde muitas vezes entrou quando criança, muitas vezes brincou, tomou banho, fez bagunça. E então vai até a pia, de mármore, tão baixinha agora, e vê dois copinhos de plástico, um de cada lado da pia, e dentro de cada um dos copinhos, de cores diferentes, vê duas escovas de dentes, também de cores diferentes, ali, tão sozinhas, tão limpas e bem arrumadas, tão íntimas, tão indescritivelmente tristes e sozinhas, sozinhas, sozinhas… E então ele chora.

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