A foto do autor

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Abriu a caixa sem saber que ali dentro descansava um quebra-cabeças de sua vida.
Nunca havia tido muito interesse pela fotografia, mas as imagens que saltaram da caixa penduraram-se nos seus cílios. Não sabia que havia registro do famoso incidente na piscina. Que vergonha, não podia pensar naquele dia, mas agora já fazia tanto tempo que chegava a ser… A viagem ao Chile! Uma das melhores épocas de sua vida. Podia lembrar perfeitamente do cheiro dos Andes, bem como da noite em que embebedou-se com os amigos na cozinha do albergue… E lá estavam eles todos perto daquele monumento cujo nome agora lhe escapava à lembrança… Ela revirava as fotos e deparava-se com pequenas lascas de sua vida. Um brinde em 84, um festival de caretas em 87, um inusitado aniversário dentro do avião em 2001… Vendo tudo aquilo, sentia que sua vida era imensa, algumas lembranças eram tão distantes que pareciam ter ocorrido numa outra vida. Podia até ser um pensamento pretensioso, mas ela sentia que sua vida era… Parou os olhos em uma fotografia. Em meio a um mar de imagens, encontrou uma foto do autor. Nunca mais havia pensado nele, mas agora que o tinha estático em suas mãos, podia perfeitamente ouvir sua voz. Lembrou de sua risada alta e debochada. E de como tapava os olhos quando ria demais, para parar as lágrimas que lhe surgiam na face aos borbotões. Era uma pena que tinha acabado… Perdeu totalmente o contato com ele. Agora pensava ter sido uma bobagem, teria agido diferente, se ao menos… Por que havia sido tão boba? Sim, ele era egoísta às vezes, e ela realmente achava que ele estava errado, mas… Olhando a foto, sentia falta de encostar seu rosto no do autor. De ficar abraçada, quase pendurada nele no fim das festas, meio dormindo, meio flutuando… Estaria ele ainda escrevendo? Ela gostava do que ele escrevia, menos quando era sobre ela. Não gostava de se ver nas histórias dele, de saber como ele enxergava o seu jeito de ser. Preferia não ser transformada em palavras, preferia ser a moça debruçada nos ombros dele a adejar… Separou algumas fotos e fechou a caixa. Tentou focar seus pensamentos nos afazeres, mas os momentos evocados pelas fotos sobrepunham-se em sua mente. Em especial, o sorriso do autor. Talvez ele ainda lembrasse dela. Quem sabe a visse em fotografias? Era possível que ainda escrevesse sobre ela. Ela – secretamente – gostava da ideia de permanecer sua personagem. De estar nos olhos dele, nas lágrimas e na ponta da caneta. Quem sabe no sorriso?… Mas preferiu afastar o pensamento sacudindo sua cabeça. Se ele ainda escrevia sobre ela, era melhor que ela não soubesse. Então deixemos assim.

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