A vida em monocromo

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por Clarice Casado

Acabo de aprender com o Fabilipo (o Fabiano Liporoni, da coluna de Cinema deste site, baita escritor) que, em cinema, monocromo é termo usado para designar filmes que sejam de uma cor só, aquela cor meio bege, “sépia”, acho que esse é o termo certo. Muitas vezes, nesses filmes há objetos em cenas específicas que aparecem coloridos, para que haja um certo destaque, para chamar a atenção, para simbolizar algo.

Lembrei-me, então, de A Lista de Schindler, um filme que gostei muito quando vi e que gosto até hoje, toda vez que passa na TV eu assisto de novo, e choro de novo, e me choco de novo, e fico pensativa durante dias, de novo. Nesse aclamado filme do Spielberg, há uma cena em que uma menininha aparece caminhando sozinha na rua, em meio a uma confusão qualquer de alemães perseguindo judeus, não me lembro bem, acho que era o esvaziamento de um gueto, tiros, correrias, um horror. Ela caminha sozinha na rua em meio àquela bagunça atroz, e seu casaquinho de inverno é vermelho, só o casaquinho. Algumas cenas adiante, o choque: vê-se, em uma carreta carregada de corpos de judeus mortos, um corpinho com um casaco vermelho… Aquela foi uma das cenas de cinema que mais me chocaram e me marcaram em toda a minha vida.

Fiquei pensando que há períodos em que nossas vidas ficam em monocromo. Sim, durante algum tempo, pelos mais diversos motivos, parece que tudo fica bege, sem graça, sem cor. Mas sempre há os vermelhos que se destacam, aquelas coisas que nos fazem ficar em contato com a felicidade e com a realidade, nem que seja um pouquinho só.

Até ontem, tive que tomar um remédio que me tirou do ar. Deixou minha vida em monocromo. Que sensação horrorosa. Isso nunca tinha me acontecido. Fiquei boba, desconectada, meio aérea. Fiquei não sendo eu, e eu odeio não reconhecer a mim mesma. Olhar no espelho, e ver uma outra, rosto tranquilo demais, meio sem expressão, nem triste, nem feliz. Gosto de ser eu, sentir-me eu. Reagir como eu mesma reagiria. Fiquei até com medo daquela mulher que me habitou por uns cinco ou seis dias. Por sorte, eu tinha meus vermelhos, minhas conexões com a “Eu” verdadeira. Me agarrei nos vermelhos, para não me perder. E me salvei mesmo, porque voltei. Fiquei vermelha também.

Nesse momento em que escrevo, tenho só a lembrança boba daquela boba que estava em mim. Reconheço-me, agora. Nos meus gestos, no meu olhar, nas palavras que digo e que escrevo. Abraço-me e digo, bem-vinda de volta, amiga.

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