O dia em que pensei ter matado o Coelho da Páscoa

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ou, pelo menos, o dia em que supostamente matei a ideia de sua existência.

Todos os anos, na semana que antecede a Páscoa, tenho o costume de colocar pequenos ovinhos nos chinelos dos meus filhos todas as noites, quando estão dormindo. Transformo-me, portanto, no Coelho da Páscoa, ou, por que não, passo a ser, naqueles poucos dias, a sua longa manus.

Meu filho mais velho, sete anos, adora isso tudo. Ainda acredita piamente na existência do Coelho, bem como na do Papai Noel. Neste ano, porém, creio que fiz bobagem. Tenho a firme convicção de que comecei a acabar com a sua inocente crença no Coelho. Fiquei extremamente triste.

Passo a contar, então, o que aconteceu.

Comprei todos os chocolates de Páscoa para meus dois pequenos (a menor tem pouco mais de um ano, mas já começa a curtir a maravilha doce e marrom) umas duas semanas antes do domingo de Páscoa. Junto com todos os chocolates, comprei também os mini-ovos que costumo colocar nos chinelinhos deles. Cheguei em casa, escondi todos os chocolates, mas acabei deixando separados em cima de minha mesa de cabeceira o tubo com os mini-ovos, para não esquecer de colocá-los nos chinelos à noite. Foi o meu maior erro.

Um pouco antes de dormir, meu filho veio ao meu quarto e viu o tubinho de plástico transparente com os ovinhos, e perguntou, “Mamãe, quem te deu esses ovinhos?”, e eu, já pensando, “Ai, fiz besteira”, respondi, “Ah! Eu ganhei de um aluno meu”, e ele, “Hum, devem ser bons, quero comer depois…”. Bom, aparentemente, tudo bem, tudo tranquilo, sem mais perguntas cabeludas sobre o ocorrido. “Ufa”, pensei.

Quando ele dormiu, fui até seu quarto e coloquei dois ovinhos de cores diferentes nos chinelos. Fiz o mesmo no quarto da pequena. Fui deitar-me.

No dia seguinte, fui acordá-lo para ir para a escola, e ele logo viu os brilhantes ovinhos em seus chinelos, “Olha, Mamãe, o Coelho já me deixou uns ovinhos, que legal!”. E eu disse que era ótimo, que provavelmente ele iria deixar ovinhos todos os dias até a Páscoa, no domingo. Ele foi escovar os dentes, e, quando voltou, disse, categórico, “Mamãe, eu acho que o Coelhinho da Páscoa roubou alguns daqueles ovinhos que você ganhou para me dar, eles são iguaizinhos!”, e eu, apavorada, disse, “É mesmo, filho! Será que esse Coelho é meio ladrão?”.

Para tudo! Ladrão, Clarice? Ficou louca? Chamar o Coelho da Páscoa de ladrão???? Ora, mas eu estava numa situação de emergência, foi a primeira coisa que me veio à cabeça! Depois, mais calma, pensei que eu poderia ter dito, “Não, filho, vai ver que o Coelho comprou no mesmo lugar que o meu aluno”, mas não, a mãe de família aqui resolveu confirmar a hipótese do filho de sete anos de que o Coelho da Páscoa, uma respeitada entidade fantasiosa, era ladrão, ou cleptomaníaco (sim, já que, pensando friamente, porque roubaria, se “ele” é o Coelho da Páscoa e pode ter acesso gratuito a todos os ovos de chocolate do mundo???)!!!

Seguindo na farsa, fazendo de tudo para “salvar” a crença do meu filho no dentuço chocolateiro, disse, “Filho, vou lá ver se ele pegou mesmo os meus ovos, se o tubo estiver meio vazio, é porque ele pegou!”. Óbvio que o tubo estava vazio, e sabemos a razão, o Coelho da Páscoa sou eu! Levei e mostrei o tubo vazio a ele, que ria, satisfeito: não sei se porque em algum momento realmente pensou que eu poderia ter colocado os ovos, ou se porque achou muito engraçado o Coelho da Páscoa ter roubado meus ovinhos para dar a ele! Completei, dizendo, “Poxa, filho, espero que amanhã ele não pegue os meus, né?”.

No mesmo dia, fui a uma loja de chocolates comprar outro tipo de ovinhos para colocar nas próximas noites, sempre firme no meu objetivo de manutenção da fantasia de criança do meu filho. À noite, os coloquei novamente nos chinelos.

Na manhã seguinte, meu filho veio me mostrar satisfeito os ovos diferentes, provavelmente aliviado: o Coelho não era tão ladrão assim… Porém, neste mesmo dia, começou a formular estranhas hipóteses: primeiro, contou-me que um dos amiguinhos da escola teria lhe dito que não acreditava no Coelho, que o Coelho era uma pessoa fantasiada. Eu disse, “Ah, mas que bobagem, o Coelho é um coelho mesmo!”, e ele disse, “Como assim, que tamanho tem o Coelho? Ele é pequeno como um coelhinho, ou grandão?”. Fiquei uns segundos sem responder. Cheguei à conclusão de que nunca havia pensando nisso. Realmente, era muito estranha a ideia de um pequeno coelho carregando tantos chocolates! Respondi que não sabia ao certo (vacilei, vacilei…). Então, ele me pergunta outra coisa: “Mamãe, mas por onde o Coelho entra para deixar os ovos, pela janela?”, e eu disse, “Sim, como o Papai Noel, ué”, nada convicta. “Mas, Mamãe, o Coelho voa, por acaso?”, Ai, ai, ai, agora a coisa tinha ficado feia. Eu respondi “Não, não voa, mas ele deve ter algo parecido com um trenó, né?”. Ele me olhou meio desconfiado, mas parece ter acreditado, “Ah, é…”.

Pronto! Essa derradeira conversa bastou pra que eu entrasse numa crise: será que matei o Coelho da Páscoa para o meu filho? Acabei com essa fantasia de infância? Prezo muito as crenças e fantasias de infância. Acho que deve ser maravilhosa a sensação de crescer num mundo de castelos no ar. Isso é inocência em seu mais puro estado. A criança tem esse negócio loucamente puro de acreditar no improvável. Acreditar sem questionar, acredito porque acredito, e ponto. Nós, adultos inteligentes e extremamente racionais, só acreditamos no que pode ser provado. A criança só deixa de acreditar quando a razão começa a sobrepor-se à emoção. Deixa de crer quando começa a dar-se conta da fragilidade da fantasia. Quando começa a exigir de si mesma e dos adultos provas para a existência dos seres fantásticos e das fantasias. Creio que deva ser assim.

Contei essa história ao meu pai, avô nato (segundo sua própria definição), comentando sobre minha preocupação por ter aniquilado com a crença do Coelho para o meu filho, e ele disse-me algo que achei precioso: “Enquanto interessar, a criança acredita. Ela é muito mais inteligente do que nós pensamos”.

Meu filho ainda se interessa pela fantasia, e por isso, acredita nela. Ou, pelo menos, faz força para acreditar nela. Talvez esteja travando uma luta com ele mesmo sobre a crença. Mas seu interesse faz com que a crença na fantasia ainda vença a dúvida. Ele quer ser criança. Quer esperar o Coelho. Quer sentir aquela curiosidade. Quer ganhar e comer os ovinhos de chocolate. O interesse pela fantasia alimenta a crença e faz com que ela permaneça. O interesse faz com que meu filho permaneça inocente: permaneça criança.

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