Prova de fogo

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por Clarice Casado

“Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!”

“Poema Enjoadinho”, Carlos Drummond de Andrade

Oi, leitores!

Hoje eu estava naqueles terríveis dias nos quais a inspiração não chega, não vem, não está querendo se manifestar de jeito maneira (como dizia meu pai, há muitos anos atrás). Escritores sabem bem do que estou falando, aliás, artistas em geral o sabem. Mas, como dizem, não é só suficiente a inspiração, tem que ter “transpiração”, ou o que seja, blá, blá, blá, o exercício “forçado da arte faz a arte melhor e coisa e tal. Nem sei se concordo com isso de verdade, pois, de nada adianta sentar-se pra escrever e escrever um monte de bobagens desconexas, se é por isso, vamos fazer uma lista de supermercado e pronto. Ok, ok, colegas que querem me censurar, está bem, admito que um pouco de exercício forçado não faz mal a ninguém… Mas depois que se lê o que se escreveu em um dia não inspirado, dá vontade de nunca mais chegar perto de uma tela de computador, tamanhas as porcarias que podem sair.

Está bem, chega de enrolação. Pois esta que vos fala estava justamente a pensar em sua falta de inspiração nesta semana enquanto aguardava que seu filho tomasse um banho e se vestisse após sua aula de natação.

Pergunto-lhes, estimados leitores: já tiveram a oportunidade ímpar de frequentar um vestiário infantil? Vocês dirão, “Claro, quando éramos crianças”, e eu direi, “Ah, mas aí não vale!”. Pergunto-lhes se já estiveram em um vestiário infantil depois de adultos, com filhos, sobrinhos, netos, primos. Já? Quem já esteve, já deve até estar rindo sozinho e imaginando o que a cronista vai contar.

Pois bem, enquanto era espremida entre mães, babás, avós e crianças (muitas, que, em conjunto, tem a capacidade plena de colocar abaixo um estádio de futebol, se quiserem), formulei uma hipótese: se alguma pessoa estiver em dúvidas sobre ter ou não um filho, vá a um vestiário infantil bem lotado. Se conseguir sair ilesa, achando que a experiência foi interessante, vá em frente, garoto, você nasceu para ser pai! Se, no entanto, tiver vontade de sair correndo, desista, você deve continuar cuidando só de si mesmo para sempre, e olhe lá…

A experiência é mais ou menos a seguinte: imagine um espaço exíguo, com mais ou menos trinta crianças entre dois e dez anos, gritando, correndo, pulando, cuspindo, chorando, dando chutes, comendo, bebendo suco, tudo isso, em meio a banhos longos ou curtos, dependendo da criança, com direito a gritos e intervenções (em sua maior parte furiosas) de mães, babás, avós, e raros pais, tias e agregados. Adicione a esse verdadeiro caos um calor do cão, infernal, você querendo ficar só de calcinha ou cueca por causa do bafo terrível, enquanto os anjos não querem colocar xampu, demoram um século para se ensaboar, se secar, colocar a roupa, pentear-se, isso, sem falar nos pobres azarados que acompanham meninas, pois essas têm que secar os cabelos e penteá-los ao som de uivos e choros e gritinhos, e ainda completar com perfumes, tiaras, micropregadores da Hello Kitty que insistem em pular de suas mãos para o chão enlameado de água, sabão, suco de uva, bisnaguinha com requeijão, xampu e (talvez) um pouco de xixi!!!

Observo vestiários infantis há anos: não há uma só criatura acompanhante de crianças que pareça divertir-se, nem que por um segundo. Eu confesso que já tentei, inclusive fazendo com meu filho piadinhas sobre as bagunças das crianças e bravezas e xingamentos dos acompanhantes ao redor, mas, olhem, é difícil…! Você pensa em tudo que tem a fazer quando chegar em casa, e, é duro achar toda aquela função linda e maravilhosa. As pessoas que saem do vestiário têm feições tão esgotadas quanto a de lutadores e boxe após uma árdua luta: rostos suados e enfurecidos, braços e pernas cansados, muita fome (o exercício é grande).

Assim, caros leitores, façam a experiência: é batata! Se conseguir se divertir, realmente, parabéns!!! Você é um herói e merece ter muitos filhos. Mas, como eu já disse, se achar que aquilo tudo é uma loucura, esteja certo que realmente o é. E é apenas uma parte pequenininha dessa inacreditável aventura que é a paternidade. Devo admitir que, mesmo com toda a chatice plena da saga semanal do vestiário infantil, a tal da aventura vale a pena. E muito a pena. Afinal, toda a aventura inclui riscos. E este, meus estimados leitores, é um deles: o de nunca ter a plena certeza de ser capaz ou não. Mas, como sabê-lo, sem tentar?

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