Magra

magra
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O Liporoni e o Moisés (e agora também o Jairo!) que me perdoem, mas hoje quem vai falar de cinema sou eu! Não querendo invadir o espaço de meus estimados colegas de site, quero, como mera apreciadora dessa arte que sou, comentar, com olhos de cronista/contista/meio-poeta, um sensível documentário que assisti recentemente.

Chama-se “Thin”, “Magro/Magra”, em português, e trata da real e dura batalha de algumas meninas e mulheres contra uma das doenças mais comentadas e estudadas da atualidade, o preocupante e arrasador distúrbio alimentar, que pode manifestar-se sob diversas formas, como a bulimia, a anorexia e a compulsão alimentar. Tais distúrbios, penso, ainda não são vistos pela sociedade como reais doenças, ou seja, as pessoas que não convivem ou tenham ouvido falar de alguém que sofre ou sofreu da doença não tem verdadeira ideia dos horrores que podem causar à vida de muitas pessoas, em especial mulheres, que são suas maiores vítimas.

“Thin” é um tocante e pungente relato da dor e do sofrimento de algumas meninas e mulheres que estão tentando tratar-se de seus distúrbios alimentares em uma clínica especializada nos Estados Unidos, se me recordo bem, na Flórida.

A cada cena, a cada depoimento, a cada palavra, o que se vê são moças desesperadas por serem magras, cada vez mais magras. Mesmo estando internadas, parece que há uma força que as empurra constantemente para a vontade de emagrecer sem limites, a qualquer custo, vontade essa muito superior aos seus próprios anseios.

Peguei-me chorando em diversas partes do filme, pensando que aquelas meninas e mulheres pareciam todas comuns, mulheres como eu, com sua vida social, seus estudos, filhos, trabalho, afazeres domésticos. Mas “comuns” não eram, tudo em nome de uma magreza que, em muitos dos casos apresentados no filme (e também, na vida real), era (é) quase impossível de se alcançar, porque cada corpo é um corpo, é impossível que todas as mulheres do mundo sejam como a linda Gisele. E seus rostos eram todos tristes, e todos contavam histórias tristes, histórias de como sempre sofreram a vida toda sendo gordinhas (ou, sendo magras que enxergavam-se gordas), e, quando decidiram fazer um imenso esforço para serem magras ou ainda mais magras, começaram igualmente a sofrer, porque sua vontade de emagrecer poderia um dia matá-las.

O que para mim pareceu é que elas não tinham efetivamente saída: sofriam quando consideravam-se acima do peso, e acabavam por sofrer também quando emagreciam demais, já que a família e a sociedade pressionavam-nas novamente para engordarem, fugindo da doença. Ou, pior, sofriam julgando-se gordas, mas em realidade só viam-se gordas, sem o serem (um dos distúrbios, denominado “distorção de imagem”, faz com que a pessoa enxergue-se e mesmo sinta-se gorda, ainda que magra ou magérrima). Em ambos os casos, o que choca é que quem tem distúrbio alimentar sofre sozinho, sofre escondido. Muitas vezes, o distúrbio está ali, em sua própria casa, e você nem sabe.

Outro problema é que, de regra, quem tem o distúrbio não consegue “comer só um pouco” para ficar dentro de um peso considerado “normal” para aquela determinada pessoa. O indivíduo com distúrbio come muito, e acaba novamente por engordar. Ou come muito e vomita constantemente, o que também é terrível. Ou simplesmente param de comer, recusam-se a comer, podendo até morrer. É um círculo vicioso, que realmente parece não ter fim. Muitas das meninas do filme saíram da clínica e voltaram a ter problemas novamente logo depois.

Não quero aqui falar de clichês, não vou falar da “ditadura da magreza” e nem condenar as revistas femininas e as agências de modelos. Não creio que discursos desse tipo resolvam o problema.

Quero falar aos familiares e aos amigos de meninas e mulheres (e eventualmente homens) que sofrem de distúrbios dessa natureza, quero dizer-lhes que assistam “Thin”. Quero dizer a todos que puderem que assistam “Thin”, para tentarem ser menos fúteis e superficiais na hora de escolher um parceiro, um funcionário ou um amigo, por exemplo. Isso pode ser muito difícil de entender para homens e mulheres, mas o que importa em relacionamentos humanos, sejam eles de que natureza forem, de trabalho, familiares, de amizade, amorosos, são os laços de confiança e respeito que se criam. Digo isso porque pessoas acima do peso são muitas vezes discriminadas, e eu simplesmente abomino qualquer tipo de discriminação.

Compreensão, apoio, conversa e atenção aos sinais de distúrbio: isolamento dentro de casa e recusa à vida social, tristeza excessiva, uso de roupas em excesso, mesmo em tempo quente; comer compulsivamente ou recusar-se ao alimento. Penso que isso seja o melhor a fazer. Ajuda a quem sofre da doença, principalmente. Tentar mostrar que o carinho existe, e deve partir da família e dos amigos, em qualquer situação de desespero.

“Thin” fez-me pensar sobre muitas coisas. Valores, ideias, atitudes. E filmes que fazem pensar devem ser sempre comentados e divulgados. Nem que seja por uma mera apreciadora, como eu.

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