As mães do tempo

maesdotempo

por Cassiano Rodka

Os acordes de um velho órgão ressoavam na velha mansão da montanha. No centro da sala, havia uma enorme mesa retangular com quase todos os seus lugares ocupados por mulheres das mais diversas idades. Sorrisos despertaram em alguns rostos quando reconheceram a melodia que fugia dos tubos do órgão. Aos poucos, alguns assobios timidamente deram as mãos às notas de “Raindrops Keep Fallin’ on My Head” e seguiram com elas até o fim da canção. Aplausos e risinhos. “Esplêndido, esplêndido!”, deleitava-se Edwiges. Depois levantou-se na ponta da mesa. Esse simples movimento teceu uma instantânea rede de silêncio

– Queridas amigas, está aberta mais uma sessão. É importante decidirmos hoje a duração dessa chuva, que já toma conta da cidade por quase duas semanas. Creio já ter sido tempo o suficiente para conscientizarmos alguns dos nossos mais teimosos a não esquecer o guarda-chuva, em especial o Jorginho e o Bernardo, que eram nossos principais objetivos. Além do mais, a umidade está acabando com o meu cabelo!

Risos.

– Semana que vem, temos a viagem à Gramado do colégio São Vasconcelos e sabemos que isso significa muito para essas crianças. E, já que todos foram obedientes no quesito “não esquecer o casaco”, eles merecem essa. Então, Elizabeth, lamento, mas não poderemos deixar a chuva seguir só para estragar o passeio de fim de semana do Albertinho com o seu ex-marido.

– Sabia! Aquele maldito sempre consegue!

– Querida, nós já castigamos tanto o Roberto… Creio que já esteja na hora de irmos em frente nesse assunto.

– Como eu gostaria que lhe caísse um trovão na cabeça!…

– Liza…

– É contra as regras, eu sei… E estamos aqui pelas crianças, não por esse… cretino!

– Exato!

Um rangido agudo e lento tomou conta do salão. A mesa ficou tomada por cabecinhas curiosas que miravam a silhueta na porta. Uma moça encapuzada entrou lentamente. Quando tirei o capuz, percebi uma gigantesca mesa em minha frente, repleta de rostos desconhecidos. Fiquei um pouco assustada com a quantidade de pessoas que me olhavam em silêncio. Não reconhecia os rostos, mas procurava apenas um… Percorreu vários deles com seus olhos azuis e o abanar de uma mão chamou sua atenção. Era Clara.

– Aqui, querida!

Estava sentada lá no fundo, quase ao fim da mesa. Fui até ela.

– Sente-se aqui ao meu lado, a sessão recém começou!

Sentei sem entender o que se passava. Uma matrona na ponta da mesa me olhava, sorrindo. Era a única que estava em pé e, depois de me fazer um sinal positivo com a cabeça, deu procedimento a uma espécie de discurso. Falava do tempo. E dos filhos de algumas das pessoas que estavam na mesa. Logo percebi que só haviam mulheres ao meu redor. O assunto foi tomando um rumo absurdo, a matrona fazia votações e propostas quanto a previsões meteorológicas. Todas pareciam muito animadas com os resultados, mas…

– Clara… O que está acontecendo aqui?

– Estamos tomando decisões.

– Clara… o que ela está falando… essas votações… Isso tudo não faz sentido!

– Somos todas mães. Temos que educar nossos filhos. Se o Felipe não levar guarda-chuva, vai chover. Se a Renata não pegar o casaco, vai fazer frio. É assim que tem que ser.

– Nós não podemos tomar essas decisões!

– Querida… nós tomamos essas decisões o tempo todo. Chuva, frio, neblina… a velocidade do vento, a posição das nuvens no céu… até a temperatura do Sol nós controlamos.

– Isso é uma loucura! Vocês são todas loucas!! Loucas!!!

– Querida, calma. Eu posso lhe mostrar como tudo funciona…

A matrona havia se calado diante dos meus gritos, os rostos sorridentes me olhavam, eu me sentia tonta, o barulho da chuva lá fora, os olhares penosos, a cadeira caindo para trás, Clara chamando meu nome, a mesa infinita, o longo caminho até a saída, o rangido agudo, as lágrimas nos olhos, a enorme porta de madeira escura se fechando atrás de mim.

– Eu realmente achei que ela estivesse pronta, ela…

– Clara, Clara, querida, não se culpe. Todas nós já passamos por isso. É difícil aceitar o que nos pertence. E, além do mais, nós sabemos…

Um silêncio cúmplice se pôs entre elas.

– … Ela voltará quando ele fizer 7 anos.

Entreolharam-se com seus sorrisinhos sábios e o olhar confiante de quem tem o futuro do mundo em suas mãos.

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