Muito além do CD

por Cassiano Rodka

Antigamente, comprar um disco novo era um acontecimento. Abrir a embalagem de plástico, sentir o cheiro do vinil, olhar o encarte com fotos e letras, escutar as músicas do começo ao fim, mergulhando naquele mundo durante toda a duração do álbum. Com o CD, a sensação era a mesma e aquela coleção de músicas era ouvida por semanas ou até meses. Mas numa época em que o acesso à música através da internet é tão simples, os artistas precisam ir muito além de suas canções para chamar a atenção do público ouvinte.

Baixar um disco pela internet atualmente leva de 15 a 30 minutos, dependendo da conexão, é claro. O acesso à informação pela internet é gigantesco e pode-se conhecer bandas do mundo inteiro com grande facilidade. Esses fatores aliados fizeram com que os fãs de música adquirissem o hábito de baixar novidades diariamente. Ou seja, ouve-se muito mais música em muito menos tempo. É muita informação nova por dia, o que faz com que nos tornemos muito mais exigentes: um disco bom não é suficiente para chamar nossa atenção, ele precisa ser genial. Muito mais que isso, ele precisa ser único.

Alguns músicos, atentos a essas transformações, iniciaram uma revolução que faz seus álbuns irem muito além de suas canções. O CD mais recente do Beck, “The Information”, procura uma maior interação com fãs, aliando o poder do videoclipe à possibilidade de customização da arte contida no encarte. O cantor declarou que esperava que isso aprofundasse a experiência do fã em relação ao seu trabalho. Em vez de ter uma capa definitiva para a obra, Beck resolveu deixar a sua criação nas mãos dos fãs. Sendo assim, o CD vem com vários adesivos que podem ser colados de diversas maneiras, formando uma capa exclusiva para cada encarte, ao gosto do seu dono. Além disso, algumas cópias do álbum vêm acompanhadas de um DVD com um videoclipe para CADA canção. São vídeos caseiros que foram depois espalhados propositalmente no YouTube. Uma forma de lançar não só uma música de trabalho, mas dar espaço a todas.

becktheinformationstickerart

Os venezuelanos do Todosantos (minha banda preferida no momento) também reconheceram a força do imagem em movimento, lançando um EP audiovisual. Muito além de agradar apenas os DJs, o disco é um prato cheio para os VJs (os que projetam clipes e imagens nos telões das festas, não os modelos da TV). O EP “Acid Girlzzz” conta com 3 faixas audiovisuais (também conhecidas como “pods”) em formato mp4, que podem ser reproduzidas em iPods, iTunes, DVD players ou DVD mixers de VJs. Na era da internet, é comum ouvirmos bandas que não conhecemos o visual, mas o Todosantos faz questão de já entregar o pacote completo. Perfeito para quem tem o iPod Vídeo. Não é o meu caso. 😦

Mas Trent Reznor, que é o mestre dos avanços tecnológicos musicais, não poderia ver isso tudo e deixar por menos. O Nine Inch Nails adentrou 2007 indo muito além do imaginável, criando um verdadeiro universo para divulgar o novo álbum da banda, “Year Zero”. Tudo começou quando um fã percebeu que uma camiseta vendida na nova turnê da banda continha algumas letras em destaque que formavam a frase “I am trying to believe” (“eu estou tentando acreditar”). Descobriu-se que existe um site na internet no enderço www.iamtryingtobelieve.com que descreve a situação de um mundo afetado por uma droga usada comumente na água que tomamos e que altera os estados da mente. Outros sites foram surgindo questionando os verdadeiros efeitos da droga chamada “parepin”, acusando-a de causar alucinações e ser bioterrorismo. Há também teorias de que o Ano Zero (“Year Zero”, o título do álbum) é daqui a 15 anos, onde um novo mundo ressurge das cinzas desse em que vivemos. Perguntado a respeito, Trent Reznor disse que não queria dar muitos detalhes, mas que “Year Zero” é um álbum conceitual, parte de algo maior. “É como a trilha sonora de um filme que não existe.” Eu diria que é a trilha sonora de uma realidade que não existe. Ainda.

nincamisetabelieve

E não para por aí, algumas músicas novas vazaram, mas não na internet (isso é muito ordinário para Trent Reznor), elas foram encontradas em drives USB em lugares inesperados, como o banheiro de uma casa de shows onde a banda se apresentava. Além das músicas, alguns possuíam imagens que incluem um alienígena e uma espécie de cartão postal apocalíptico com as famosas letras garrafais de Hollywood destruídas e os dizeres “In Memoriam”. Mais uma vez, uma pista que leva a um site: http://www.hollywoodinmemoriam.org, onde há a notícia de um suposto atentado à Los Angeles e fotos de pessoas que teriam desaparecido após o ataque. Há muito mais pistas aparecendo e Trent Reznor certamente criou a maior campanha de marketing já vista na história, incluindo o ouvinte em um verdadeiro universo paralelo. O novo CD do Nine Inch Nails não vem com um DVD bônus, clipes ou adesivos. Ele vem com um mundo inteiro de brinde.

Os outros artistas que se cuidem, pois, atualmente, só faz música quem é Deus.

NINInvitation.jpg

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s