Maturidade

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por Marcella Marx

Entrei no trem ainda vazio, apesar disso algumas pessoas já andavam pedindo licença pelo estreito corredor. O trem não era dos mais antigos, havia dois lugares em cada lado, ambos voltados para frente. Minha imensa mochila foi raspando em todas as poltronas até chegar a minha: uma janela. Tentara evitar durante todo o percurso pensar no fato de que teria pela frente um grande “desafio”. A verdade é que não conseguia, por melhores que fossem minhas conjeturas, obter êxito na tarefa que me aguardava, na maioria de minhas elucubrações, o final era desastroso. A simplicidade daquela tarefa fazia-me sentir ridícula e notar o quão banais minhas preocupações haviam se transformado. Incrível, eu pensava, como ações simples eram amplamente redimensionadas. Bastando, para tanto, que você saia de sua posição de conforto ou que transgrida um espaço geográfico previamente estabelecido para você e, mais tarde, por você (esse último ainda mais assustador).

Havia chegado o momento, o corredor esvaziara-se um pouco. Desvencilhei-me das amarras, a apoiei sobre o braço da poltrona, segurei firme com as mãos, uma de cada lado e ergui com toda a força que alguém cansada, depois de caminhar o dia inteiro sob sol e chuva, podia dispor. Quando havia conseguido erguer a mochila à altura dos olhos, percebi que não podia mais, desespero, raiva e pena de mim mesma, naquela cena um tanto deprimente. Sabia que se desistisse não teria força para levantar novamente, foi então que, surpreendentemente, meu pensamento foi comandado pelo movimento de meus braços. Abaixei-me e, com a cabeça, fui equilibrando os 14 quilos. Quando já próxima à porta do bagageiro, empurrei-a para dentro com as mãos e um forte grito interno que, por pouco, não foi ouvido por toda a estação.

Completamente absorta estava que nem percebi as pessoas se aglomerando no corredor à espera de passagem e, ironicamente, um jovem senhor ofereceu-me ajuda. Fiz um sinal aliviada e tão crente em mim como poucas vezes fui. Impossível descrever a satisfação e o orgulho que me tomavam e, sob efeito dos quais, permaneci gabando-me durante um bom tempo. Era a mais independente das mulheres, livre, como também poucas vezes fui.

O trem estava lotado, mas o lugar ao meu lado ia vago. Minha felicidade não poderia ter sido maior, considerava aquela uma recompensa pelo esforço de há pouco. Esparramei-me pelos dois assentos e dormi. Lá pelas tantas da madrugada, o trem fez mais uma de suas inúmeras paradas para embarcar e desembarcar passageiros. Nessa em particular, ninguém desceu e somente um homem embarcou e sentou-se no único lugar vago: o ao meu lado. Era um senhor, devia ter quase uns setenta anos, exalava um cheiro forte de vinho fermentado. Não conseguia saber se o odor vinha dele ou da garrafa sem rótulo e cheia de um líquido de cor indefinível devido ao lusco fusco do trem. Refiz-me na poltrona, procurando ocupar o menor espaço possível. Quanto mais eu me encolhia, mais o velho (atenção à mudança do vocábulo) rastejava para o meu lado e não cessava em beber o líquido insosso. Todos dormiam no trem e eu tentava, a todo custo, fazer o mesmo, desejando que o tempo voasse e que eu chegasse a meu destino. Imóvel e coagida no canto, ouvi o velho balbuciar qualquer coisa, não conseguia sequer reconhecer o idioma utilizado, parecia um dialeto alemão. Após o murmúrio ele retirou de dentro de uma sacola imunda e rota, uma pequena lanterna. Eu continuava fingindo que dormia, com os olhos bem cerrados. Sem importar-se com tal fato, ele utilizava a lanterna como instrumento de tortura, acendendo e apagando sem cessar. O barulho do botão que a operava fazia meu sangue ferver, imaginando meus antepassados torturados em trens fantasmas que os levavam para a viagem – sem volta. Não me submeteria àquilo, não eu, não outra vez… Comecei a empurrar o velho e a falar alto e de maneira ríspida em todos os idiomas que conhecia. De repente, o que parecia impossível aconteceu: alguém se apiedava de mim. Sentada a minha frente uma mulher propôs fazermos uma troca, eu sentaria no lugar do homem ao seu lado e ele passaria ao meu. Por certo que seu altruísmo não era de todo genuíno, pois ela também sofria ao lado de seu vizinho que não parava de tossir. Infelizmente, tal oferta não era interessante para os demais envolvidos que nem sequer a cogitaram. Minha última esperança eram os fiscais do trem, com os quais fui ter. Eles argumentaram que o velho tinha pago a passagem como eu e que, portanto, tínhamos os mesmos direitos. Nada responderam sobre minha indagação a respeito dos deveres a nós impostos quando dividindo um mesmo espaço. Havia regras e o velho as quebrava todas.

Retornei fracassada ao meu lugar, o pesadelo continuava com as luzes acendendo e apagando, o barulho, o cheiro… ainda posso senti-lo. Decidi, num ato de desespero, fugir. Era uma questão de sobrevivência, de sanidade. Fechei novamente os olhos e prometi não abri-los até estar completamente “a salvo” (talvez isso significasse o final da viagem, 12 horas, quem sabe!?), assim fiz. Ao toque das pálpebras cansadas, mergulhei em grandes aventuras, minha imaginação levou-me de volta a minha casa, reencontrei os meus. Revisitei conhecidas montanhas onde senti o cheiro das flores e saboreei as frutas. Aquele passeio era frequentemente interrompido pelo velho, para quem as divisões do dia e da noite não faziam mais sentido algum, talvez pelo efeito do álcool ou pela idade avançada. Quem sabe ele tivesse perdido a razão, fugido de casa; quem sabe havia sido um prisioneiro de guerra e enlouquecido com as torturas. A mim, parecia um bruxo que assombrava minha paz.

Quando havia perdido por completo a noção do tempo e, compenetrada, fugia da Europa, da estrada, do trem e do lado daquele velho, paramos. Não consegui saber onde, como da outra vez. Só havia escuridão e deserto lá fora. Pensei que um novo passageiro embarcaria, porém enganei-me, era meu vizinho que partia. Abri um canto de olho desejando que ele já tivesse ido, mas lá estava ele em pé, esperando que eu fizesse o que fiz. Decidi enfrentá-lo, já que havia sido pega. Abri os olhos, ele então fez um gesto de adeus e sorriu um sorriso que, naquele momento, pareceu sarcástico, gozador, mas que hoje se assemelha mais ao sorriso de alguém que precisava de atenção. Sorriso humilde e sofrido, de alguém que se expressa como pode e que tinha, por certo, muito a me dizer. Bem provável que se minha atitude tivesse sido outra, quem sabe o homem que me assombrava se transformasse em sábio.

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