Emília, Emília

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por Clarice Casado

Não sou uma carnavalesca. Mas já fui uma, na infância. Amava os bailes de Carnaval infantis. Aguardava-os ansiosamente, todo santo verão. Chegava janeiro, já queria saber qual fantasia ia usar. E minha mãe era quem fazia, para mim e para minha irmã. Para o meu irmão (hoje meu colega no PáginaDois), ela acabava comprando mesmo, ou de Robin, ou de Pirata, sei lá, essas coisas de menino. Coitado, saía prejudicado. Mas acho que ele nem gostava muito de Carnaval, como não gosta até hoje. Ficava lá, meio quietinho no meio do salão, jogando timidamente uns confetes de vez em quando, enquanto aquela criançada toda louca jogava com fúria e alegria confete e serpentina uns nos outros, a maior confusão, um chorava, outros brigavam de soco, mais um se engasgava com confete misturado com cachorro-quente e Guaraná, e o Cassi ali, sempre observando, muito atento, provavelmente desde então registrando tudo em sua brilhante cabecinha, que hoje é capaz da mais sofisticada poesia e da mais contundente prosa.

E enquanto o Cassi observava, eu e a Camila, minha irmã, pulávamos e dançávamos no salão, como pequenas havaianas, bailarinas, odaliscas, essas coisas todas de meninas. Tudo muito comum, todos os anos a mesma coisa, mas a gente amava. E nós duas sempre usávamos fantasias iguaizinhas. Às vezes variava apenas a cor, de acordo com o gosto das mini-carnavalescas.

Mas houve um ano (um grande ano, creio que 1980 ou 81, porque eu lembro de ter uns seis ou sete anos) no qual fomos com uma fantasia sensacional: minha mãe confeccionou duas fantásticas fantasias de Emília, sim, a Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo, a cativante e famosa personagem de Monteiro Lobato. Em uma época em que o Sítio estava no auge, era um dos únicos programas infantis que existia e que efetivamente prestava na televisão, um época sem Cartoon Network, ou Nickelodeon, ou Discovery Kids (adoro esses canais, mas o Sítio “original” era tão legal…).

Minha mãe gastou um tempão fazendo aquela fantasia. Era o máximo, um vestidinho com bolinhas e listras, todo de tecido vermelho, azul-marinho e amarelo, com manguinhas bufantes, sainha rodada e bem curtinha, com um aventalzinho. Mas a melhor parte era a peruca, perfeita, toda feita de retalhos coloridos, costurados um a um em uma touca feita com meia-calça. Era indescritível. E tinha também umas meias-calças listradas, que completavam a “produção”. Isso sem falar na maquiagem, com direito a rosto branco, sardas pintadas, olhos com cílios muito pretos e compridos, para que ficássemos iguaizinhas à simpática boneca de pano animada de Lobato.

No dia do baile, estávamos, como sempre, animadíssimas. Eu não me lembro qual era a fantasia do meu irmão nesse ano, mas, qualquer que fosse, seria implacavelmente ofuscada pelas “Emílias”, que saíram confiantes e felizinhas rumo à diversão! O impacto das Emílias no baile foi imediato, hordas de crianças e adultos sorriam e apontavam para nós, foi uma coisa impressionante, tanto que me lembro daquele dia com detalhes, como se tivesse acontecido ontem! Foi um sucesso estrondoso, “Olha, mãe, as Emílias!”, “Ai, que lindas!”, “Bah, que perfeito!”, “Nossa, que graça!”. Eu e a Camila, minha irmã, estávamos “nos achando”, numa época em que essa gíria ainda nem sonhava em existir…! Minha mãe também devia estar bem orgulhosa.

Nos divertimos pra caramba na festinha, todo mundo queria tocar nossa peruca, ver de perto nossa fantasia. Até que chegou uma moça perto de nós, e perguntou à minha mãe (acho que foi à minha mãe, não me lembro bem disso, porque o barulho era infernal) se gostaríamos de participar do concurso de fantasias. “Concurso?”, pensei, e fiquei meio apavorada, porque, desde então, tinha pavor de público. Melhorei muito com os anos, e talvez grande parte da perda desse medo se deva a esse longínquo evento. Acho que a Camila deve ter gostado logo, porque sempre foi mais exibida e extrovertida que eu. Sei que acabamos concordando, a moça pegou nossos nomes, e passado um tempinho, fomos desfilar, em uma passarela mesmo, no meio do salão. Fomos de mãozinhas dadas, eu muito apavorada, mas, assim que pisamos na passarela, fomos ovacionadas pela multidão de crianças e adultos!!! Todos adoraram, e batiam palmas sem parar!

Nossos outros concorrentes, coitados, ficaram mixinhos perto das exuberantes Emílias! Piratas, odaliscas, palhaços, bailarinas, super-heróis, todos desfilando e recebendo umas palminhas aqui e ali. Até que… Chegou o momento da decisão! Foram escolhidos pelos jurados três duplas finalistas e estávamos entre elas! Fomos chamadas de novo, agora para subir num pequeno palco, montado perto da passarela. Quanto nervosismo! Lembro do meu coração batendo e pulando muito, creio que foi a primeira vez que senti um nervosismo daquela natureza.

Quando subimos ao palco, uma multidão gritava e batia palmas sem parar, “Emílias, Emílias, Emílias…!!!”, sem parar, sem parar, sem parar, fiquei mais nervosa ainda, não sabia se ria ou chorava, uma louca mistura de sensações! Então o mestre de cerimônias (ou algo parecido) começou a pedir que o público batesse palmas para cada dupla. Não lembro quais eram as fantasias das outras duplas, porque o pessoal gritava tanto “Emílias”, que só consigo lembrar-me disso. Quando ele pediu, “Agora palmas para as Emíliaaaas!!!”, recebemos inegavelmente o aplauso mais poderoso de todos, com assobios, gritos, confetes e serpentinas, e em poucos segundos o cara declarou, “As vencedoras foram as Emílias!!!”, e a multidão explodiu em aplausos e gritos mais entusiasmados ainda! Meu coração parecia que ia pular pela boca, agora eu sorria muito, de alívio e felicidade! Nosso momento de glória foi perfeito, fabuloso! Desfilamos de novo, orgulhosas e vencedoras, eu com seis anos, minha irmã com quatro, tão pequenas e já sentindo o delicioso e incomparável sabor da vitória…! Nosso prêmio foi um jogo muito conhecido na época, “Cai não Cai”, que jogamos o resto do verão e depois por muito tempo. Mas o prêmio maior foi sem dúvidas aquela multidão gritando alto por nós.

Lembrei-me hoje disso, quando acordei, e resolvi dividir com meus leitores. Eu não ia escrever nada sobre Carnaval nessa semana de Carnaval, porque achei muito óbvio. Mas uma lembrança como essa tinha que ir para o papel. Para que, a partir desse momento, não fique mais apenas na memória das Emílias.

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