Minhas não-férias

minhasnaoferias

por Clarice Casado

Quem não lembra (com carinho, ou talvez com raiva) daquelas redações que éramos obrigados a fazer na escola, quando voltávamos das férias? Pessoal, vamos escrever sobre as nossas férias? E a meninada toda reclamava. Claro. Baita chatice, todo ano a mesmo coisa, e os professores nem aí, que falta de criatividade. Eu posso criticar, porque sou professora e sei que alunos gostam de novidades, sempre. Não estou generalizando, claro, certamente em meio à maioria havia educadores brilhantes e criativos, eu tive muitos.

Mas, será que ainda hoje alguns professores ainda pedem alguma coisa do tipo no início das aulas? Não tenho a mínima ideia, só sei que eu não peço. E sei também que todo ano, nesse período, acabo inevitavelmente lembrando disso. Muitas férias eu narrei a completos estranhos em inícios de ano letivo, entusiasmada. Eu tenho que confessar que não me importava nem um pouco, pois desde cedo gostei de escrever.

Portanto, nesse início de ano, resolvi fazer uma viagem no tempo e escrever uma redação, sim, mas uma redação que intitularei “Minhas não-férias”, ou seja, um avesso das minhas férias, ou, “como poderiam ter sido as minhas férias se eu não tivesse saído da imensa metrópole. Tudo isso, porque, aparentemente, umas maravilhosas férias na praia, como foram as minhas, não dão ibope. Aí vai:

NOME: Clarice Dall’Agnol Casado
ESCOLA: Da Vida
SÉRIE: Quando ouço essa palavra, penso no Warner Channel
TURNO: Noite, meu preferido

MINHAS NÃO-FÉRIAS

Minhas não-férias foram em uma grande metrópole, onde não se tem mais sossego em nenhum minuto. Onde ouvem-se histórias de assaltos, de roubos, de morte, de chuvaradas devastadoras, de gritos, de pânico, de mais medo. Uma grande metrópole que é a minha mas poderia ser qualquer outra, porque sou a personagem principal e também a narradora, portanto, eu basicamente sou a senhora da história.

Nas minhas não-férias, eu acordei cedo todo dia, todo dia, todo dia, e todos os dias eu fiquei querendo quebrar o despertador, mas sei que ele não tem culpa de nada, e não o quebrei.

Nas minhas não-férias, saí de casa e voltei umas seis vezes por dia, como uma doida, e perdi uns 2kg só nessa correria. Nem porque gastei dinheiro com academia.

Nas minhas não-férias, esbravejei sozinha em meu carro mais ou menos 15,6 vezes durante cada dia, com uma variação percentual de 5% para mais ou para menos, dependendo do dia e das tarefas que eu tinha que realizar.

Nas minhas não-férias, gastei muito dinheiro em shoppings, farmácias e livrarias, meus consumos preferidos, não necessariamente nessa ordem. Há dias em que se precisa desesperadamente comprar roupas, e outros nos quais sente-se cãibras nas mãos se elas não tocarem um livro novinho em folha.

Nas minhas não-férias, briguei e me estressei bastante com meus familiares, porque a rotina é algo cruel para qualquer tipo de relacionamento. Somente umas férias para que se possa curtir integralmente e sem estresses as pessoas que amamos.

Nas minhas não-férias, tive discussões telefônicas terríveis com pelo menos cinco prestadores de serviço por semana, porque ninguém diz coisa com coisa e nunca sabe quando algo vai ficar pronto ou ser entregue realmente.

Nas minhas não-férias, trabalhei bastante, mas isso não me estressa, porque adoro o que faço.

Nas minhas não-férias, dormi muito tarde todos os dias e acordei cedíssimo e de mau-humor todos os dias, porque detesto acordar cedo, mas isso eu já contei na primeira frase desta redação, de outro jeito, mas contei.

Por fim, nas minhas não-férias, fiquei imaginando o quão maravilhoso seria poder estar em férias, de verdade, de preferência umas férias como as que tive nesse verão. Tranquilas. Felizes. Sem brigas. Sem violência urbana. Sem medo. Dormir de janelas abertas. De portas semiabertas. Deixar o carro aberto na garagem. Acordar tarde. Levar meia hora tomando café. Sentir o sol bem quentinho das dez da manhã. Pedalar ao redor do lago. Levar a criançada pra praia. Ir e vir mil vezes do mar pra areia, da areia pro mar. Sentir a água do mar. Fazer buracos e castelos na areia. Ver o sirizinho branco caminhar na areia quente do meio-dia, por entre as pessoas e guarda-sóis coloridos. Ouvir os comentários das crianças sobre o mar, os peixes, as tatuíras, a areia molhada, a praia. Sorrir sem motivo. Estar com a família. Comer um churrasco. Muitos churrascos. Deitar na rede. Sentir o vento. Ver TV até tarde. Ler sem ter pressa. Ouvir o barulho do mar. Ver o mar todos os dias. Comer um crepe no Centrinho. Se lambuzar com sorvete Alpino de casquinha. Ouvir as crianças brincando. Não ter hora pra nada. Sentir cheirinho de protetor solar. Ir ao supermercado calmamente. Tomar banho duas, três vezes ao dia. Levar as crianças pra pracinha. Tirar muitas fotos, preciosos registros. Saber que daqui a pouco a gente volta pra casa. E por isso, aproveitar o máximo que der. Porque férias são férias. E ponto.

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