Um peixe chamado Tovi

peixechamadotovi

por Clarice Casado

“O menino não perguntava o que o homem a seu lado
fazia à beira do rio, em julho, na manhã fria.
Foram muitas as manhãs
mas julhos, meses, nem tantos.
Foi, na certa, pouco o tempo que o menino passou
ao lado daquele homem à margem do rio manso.
Depois, em toda sua vida,
Não houve um tempo tão grande
(pois que tempo de menino -como rio de menino-
é maior do que o rio, é maior do que o tempo).”

“O menino e seu amigo”, Ziraldo

O neto convida o avô para o seu programa preferido quando o pequeno o visita em seu antigo apartamento no centro de uma capital do sul do Brasil. “Vamos subir pro seu gabinete, vovô”? O gabinete, um pequeno anexo ao apartamento do avô, é um mundo à parte para os dois. Ali, coisas secretas acontecem, e só eles compreendem aquele ritual. Sobem, o menino falando muito, a vozinha fina, mas constante, clara, não cessa um segundo sequer.

Seu ritual é simples, mas é um ritual. Todo ritual é místico, em sua essência. Para as crianças, rituais são importantes. A repetição dá a sensação de segurança. Para os adultos, a repetição dá a sensação de tédio. Mas não aquele ritual, e não para aquele avô.

O escritório, lotado de estantes de livros que parecem reproduzir-se a cada dia mais, tem um cheiro aconchegante de amizade. Os livros despertam nos seus donos um sentimento de posse e ao mesmo tempo de amizade. É. São mais que parentes próximos, para o avô. São parte dele. De sua história. De sua alma.

Então, os dois, avô e neto, iniciam seu ritual. Pegam juntos os regadores para molhar as plantinhas do avô, regam-nas com amor, e o menino rega um pouco do chão, também! Vai ver que é por isso que os livros se reproduzem com tanta facilidade e rapidez…

Pegam, depois, a comidinha do peixe, de nome Tovi, o último sobrevivente de uma leva grande que o avô comprou há algum tempo atrás. O menino alimenta feliz o peixinho, coloca as mãozinhas dentro do aquário, diverte-se com a ansiedade do animalzinho aquático para abocanhar o seu “sustento”.

Regadas as plantas e alimentado o peixe, passam, em seguida, a alimentar a sua amizade. O avô oferece ao neto um Guaraná “caçula”, em garrafinha de plástico. O neto bebe e fala, bebe e conta histórias, bebe e relata sonhos da noite anterior, bebe e faz perguntas desconcertantes. Trocam ideias, jogam joguinhos, ouvem música, leem histórias, brincam no computador, passeiam pelos três cômodos do escritório caseiro do avô.

O neto nada na imensidão do escritório do avô, nada livre e descobre todos os seus cantinhos e atrações peculiares, respira o amor do avô, que está sempre ali. Que estará sempre ali. E descobre tudo de novo toda a vez que retorna. E toda vez que retorna, o mesmo lugar é sempre diferente. E sempre igual. O peixe Tovi nada na imensidão de seu aquário, e talvez o seu igual seja sempre diferente, também. Porque ele é o único que pode ouvir as conversas do neto e do avô. Um dia, quem sabe ele conta pro mundo…

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