Carta aos homens grávidos

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por Clarice Casado

Ao Márcio, meu incansável companheiro de jornada

Eu poderia começar dizendo: “Prezados colegas!”. Mas não posso. Não sou um homem grávido, mas já fui uma mulher grávida. Você está pensando, “Acho uma loucura considerar grávido um homem, só porque sua companheira está grávida”, e eu digo, “Parceiro, você tem razão, também não gosto da alcunha, mas decidi chamá-los assim, para poder dirigir-me hoje a vocês, fantásticos homens que suportam as grávidas durante nove meses!” Melhorou agora?

Resolvi escrever essa carta quando ainda estava grávida de minha segunda filha, dirigindo-a ao meu marido, que foi incansável e compreensivo durante os nove meses de longuíssima e aflitiva espera. Mas minha filha já está com quase um ano, e só agora tive ânimo de escrevê-la. A ideia surgiu quando percebi que só se fala na beleza e magnitude da gravidez pensando-se na mulher, a “portadora oficial” do bebê. Ficamos aqui nos vangloriando de nossa possibilidade de gestar, ficamos reclamando do peso, das dores, dos enjoos, dos cansaços, das mudanças de humor, da falta de ânimo para várias coisas, vá lá, tudo isso acontece de verdade. Claro, ao mesmo tempo ficamos radiantes porque sabemos que aquela coisinha de poucos gramas ou quilos depende exclusivamente de nós, maravilhosas fêmeas que conseguimos carregá-las e nutri-las durante os intermináveis nove meses…

Mas, pensei, “E eles?”. E os pobres coitados que em tese apenas contribuem com a semente, como muitas pessoas gostam de dizer? Que culpa têm eles de terem apenas essa missão (fisicamente falando, claro, pois não vou aqui discutir aqui o inegável fundamental papel que têm na criação, educação e sustento da criança)? Ora, foram designados pela natureza a contribuírem com a (indispensável) semente, e muitas vezes são “linchados”, coitados, como se fossem inúteis.

Seu papel não é nada fácil, companheiros, e sei bem disso. Tudo começa quando descobrem que serão pais. Em regra, é tudo felicidade. Nem imaginam o que ainda os espera…! Os enjoos, cansaço, desconforto e intolerância a cheiros (entre outras chatices) começam rapidinho, a maior parte das mulheres os sente.

Você estava lá, na sua vidinha feliz com sua companheira, quando, de uma hora para outra, percebe que ela não é mais totalmente sua. Uma pequena semente de alguns milímetros impede que vocês saiam para um simples cineminha, apenas porque sua parceira, não se aguenta de sono, ou cansaço, ou enjoo. Vocês precisam ir embora correndo de um restaurante, não porque ela bebeu demais e quer vomitar (ah, bons tempos…!), mas porque ela quer vomitar, e pronto, e o motivo você sabe bem qual é.

Ela passa do choro ao riso e vice-versa muitas vezes durante a gravidez, ela grita, ela xinga, ela de repente lhe dá um beijo e fala animadamente: uma T.P.M que parece não ter fim, e você ali, à mercê de tudo aquilo.

Aquele cara com jeito de “eu-traço-todas” no shopping está olhando na direção de vocês: não se preocupe, não há a mais remota possibilidade de estar olhando para sua mulher, porque, sinceramente, nenhum estranho vai querer uma melancia com pernas e braços…! É mais provável que ele esteja dando mole para você, meu amigo! E o seu orgulho de macho que, no fundo, no fundo, gosta que todo mundo olhe para sua mulher e pense que ela é linda, onde fica? Ok, sem estresse, fica apenas adormecido por nove meses, depois volta.

“Namorar”, agora, é praticamente com hora marcada. Sabe aquela desculpa da dor de cabeça ou cansaço? Nunca foi tão verdadeira…! Tudo bem, vai passar, mas, haja paciência…

Não, sinceramente, como as pessoas podem não compreender e dar crédito a um “grávido”, hein? Poxa, é duro pra caramba passar por tudo isso como mero espectador… Ela sente os movimentos do bebê o dia todo, você só consegue sentir uns chutinhos quando “Sua Mini Majestade” está a fim, no final da noite, talvez.

Apesar de tudo isso, muita coisa boa ainda está por vir, começando pela maravilhosa sensação de bem-estar que se sente quando o bebê olha para você pela primeira vez. Toda a dificuldade dos nove meses parece que se vai, que desaparece. E toda sua vida muda por completo, naquele exato instante em que você vê o seu bebê pela primeira vez. Sua vida, como você a conhecia, nunca mais será a mesma. Nesse momento tem-se a exata compreensão do significado da expressão amor incondicional. Eterno. Perfeito. Não há felicidade maior.

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