Três funerais (pequeno conto em três movimentos)

tresfunerais.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Manhã: Amanda

Era cedo. De manhãzinha. Os preparativos para a festa estavam a mil. A menina Amanda faria sete anos naquele dia. Amanda, quase sete, estava feliz. Tão feliz que andava correndo pela casa. Não foi uma vez nem duas que a mãe pediu que não corresse. Foram muitas. Mas crianças em geral não ouvem. Crianças fantasiam, apenas. E mães não imaginam (e nem querem imaginar) que crianças de sete anos podem cair de uma escada de cinco degraus e morrer. Assim, num instante. Num instante o riso, noutro instante o pranto. Num instante a alegria, no outro, o desespero. Num instante Amanda, no outro, um corpo.

Tarde: Maria Luísa

Foi no início da tarde que Maria Luísa ligou para o marido reclamando de uma gripe forte, que começara no dia anterior. Coisa boba, parecia. Mas piorou e resolveu ir ao pronto socorro. Mandaram-na para casa, diagnóstico: gripe forte. Deitou-se em casa e a febre subiu. Subiu demais. Quando o marido chegou em casa ainda era dia. Maria Luísa ardia em febre e ele levou-a às pressas ao hospital, novamente. Os mesmos médicos constataram pneumonia gravíssima, que evoluiu em questão de horas para uma septicemia, infecção generalizada do organismo. Maria Luísa faria vinte e quatro anos na semana seguinte. O marido depositou o presente que havia comprado um dia antes, um lindo anelzinho de prata, na sua mão direita inerte antes que fosse enterrada.

Noite: Letícia

A empregada achou estranho quando entrou no apartamento depois de fazer as compras. Dona Letícia, oitenta e dois anos completos na noite anterior, não estava na sala. Sempre via uma novela por volta das oito da noite. Chamou-a. Chamou-a. Mais uma vez. Resolveu olhar pela casa. Seguia chamando, andando pela imensa casa, imensos e vazios quartos, que um dia foram habitados por filhos, netos. Silêncio doído, calado. Nunca imaginou que ela tivesse a coragem, mas sabia que ela pensava em fazê-lo. E o fez, a danada da velhinha. A empregada viu os potes de comprimidos vazios todos espalhados pelo chão, e deu um último abraço em Dona Letícia. “Dorme bem, minha amiga”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s