Saber morrer

por Cassiano Rodka

Esses dias estava assistindo a uns vídeos de shows atuais do Violent Femmes e me veio novamente à cabeça um velho dilema: por quanto tempo uma banda deve existir?

A resposta fácil é que as bandas boas deveriam continuar para sempre e as ruins, sumir do mapa. Mas a verdade é que muitas vezes mesmo as boas (e por “boas” entenda “as que você gosta”) acabam caindo na mesmice e insistem em falar algo que já foi dito e ninguém mais precisa ouvir. O Violent Femmes, por exemplo, é uma das minhas bandas preferidas, mas os últimos dois álbuns de estúdio que eles lançaram – o “Rock!!!!!” em 1995 e o “Freak Magnet” em 2000 – são decepcionantes, é o som de uma banda tentando ser algo que já não é mais. Desde então, lançaram uma coletânea de singles e dois álbuns ao vivo, ou seja, praticamente desistiram do presente e resolveram apostar no passado. Lançaram ainda dois DVDs de shows antigos, que são maravilhosos. Mas ver eles ao vivo atualmente é um tanto constrangedor. As letras dos clássicos da banda foram escritas quando o vocalista Gordon Gano tinha 18 anos e versam sobre as mais diversas angústias adolescentes, como revolta e frustração sexual. Atualmente, Gordon tem quarenta e poucos, e vê-lo cantando a letra de “Gimme the Car” – onde implora para o seu pai emprestar-lhe o carro para ele sair com uma gatinha – é, no mínimo, embaraçoso. É como assistir ao Red Hot Chili Peppers ao vivo e ver o Antony Kiedis pulando pra lá e pra cá sem conseguir segurar o fôlego. Ou ouvir a nova balada do Aerosmith e ver que ela é igualzinha a “Crying” e “Crazy”. Algumas bandas simplesmente desistem da criatividade e optam pelo caminho fácil, como é o caso do U2. Depois de se arriscarem a explorar novas sonoridades com os três álbuns que lançaram nos anos 90 – sem falar no belo álbum que gravaram sob a alcunha de The Passengers, uma espécie de filho bastardo não assumido do U2 -, os caras parecem ter desistido de surpreender os fãs e apostaram em uma volta ao passado, fazendo um som que remete aos seus clássicos, mas com roupagem mais atual. Mas qual é o futuro de uma banda que vive do passado?

É nesses momentos que eu admiro a atitude de bandas como o Faith No More. Os caras, em seu sexto e último álbum, assumiram suas carecas e apareceram em seus shows de terno fazendo cover de Burt Bacharach. E, vendo que não tinham mais o que adicionar, souberam fazer suas malas e seguir adiante. Souberam morrer. E esse acaba sendo o grande trunfo de bandas que terminaram “cedo”, como o Doors, o Velvet Underground e os Stooges. Em seus poucos anos de existência, essas bandas não tiveram tempo de ver o poço de criatividade secando. Sendo assim, têm uma excelente discografia. Muitas bandas têm medo de mudar e preferem permanecer na segurança de ficar fazendo a mesma coisa durante anos. Mas a mudança é um processo natural do crescimento. Impedir-se de mudar é impedir-se de crescer. Sendo assim, só resta morrer. Alguém avisa o Bon Jovi?…

SaberMorrer-MikePatton.jpg

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