A pressa do tempo

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por Clarice Casado

“Life is what happens to you when
You’re busy making other plans.”

John Lennon

Ok, aí está. Terminou-se mais um ano. E começamos a ouvir todas aquelas coisas idiotas de início de ano, com esperanças e paz e alegrias e outras bobagens. Renovação. Felicidades. Gente se abraçando. Comemoração de Ano Novo só vale pela festa mesmo, porque a comemoração da passagem, em si, sempre achei muito boba, piegas, aquelas promessas todas de todo mundo de que tudo vai mudar, etc, etc.

Sempre amei o Natal e nunca dei a menor bola para o Ano Novo. Mas sempre fiquei muito intrigada com aquela expressão, que se ouve quando o ano vai chegando ao fim, “Nossa, como passou rápido”. Certo, chegou o momento da história. Os leitores já leram o parágrafo de introdução, e agora estão a ler este, e pensando, “Será que vai valer a pena eu ler até o fim?”. Não sei, leitor. Desafio-o a ler. Se gostar, ótimo. Se não, por favor, me diga que não. Não sou muito afeita a críticas negativas (e quem o é?), mas vá lá, sei que aprende-se mais a cada dia, aprende-se botando “a cara pra bater” (odeio essa expressão, talvez alguns leitores também, quantos será que acabo de perder?).

Volta, guria, volta pra cá pra contar a história!

História: tive um problema com a televisão da sala, faz poucos meses. Quem veio prestar a assistência técnica era um simpático senhor português, de uns setenta anos. Explicou-me com detalhes o que provavelmente estava a ocorrer, ele que, segundo contou, tinha experiência de quarenta anos em eletrônica. Ouvi com atenção, coisa que nunca faço quando não me interessa muito o assunto. Pareceu-me que o que ele dizia era bem certo e com fundamento. Uma pessoa que sabia o que estava falando, coisa rara nesses tempos de informação rápida e sem muita base científica. E além de tudo, falava um português impecável de além-mar, sem erros, com todos os esses, perfeita colocação pronominal, frases sintática e semanticamente bem construídas. Outra coisa raríssima hoje em dia. Dava gosto de ouvir.

Terminada sua explicação e acertados os detalhes sobre a retirada do aparelho para conserto, orçamento, apresentação da ordem de serviço, pediu-me que assinasse e datasse. No momento da data, eu me saí com a frase clichê, “Nossa, já é setembro, esse ano voou mesmo”. Ele me olhou com um olhar sério, e disse, com a mesma serenidade e segurança com as quais havia me explicado o problema da TV, aquela segurança de quem trabalha há muito naquele ramo e sabe o que está falando, “Senhora, não são os anos que passam mais rápido ou mais devagar. Os anos têm o mesmo número de dias, todos os anos. O que variam são as nossas atividades, as nossas vidas em cada ano”. Levantei a cabeça (que estava de olho no papel da ordem de serviço) e pensei que aquela aparente obviedade era de uma profundidade e verdade tamanhas. E seguiu, “Quanto mais coisas fazemos e quanto mais coisas diferentes vivemos, mais rápido passarão os dias, os meses, os anos, a nossa vida”. Concordei com ele, totalmente.

Quando ele saiu, é claro que fiquei pensando naquilo um bom tempo, e depois aquilo me seguiu sempre, e estava me seguindo até hoje, quando resolvi dividir o fato com meus leitores. O senhorzinho tinha mesmo muita razão. Pensei em mim e em minha vida: no ano anterior eu estivera grávida, e o tempo parecia que não passava, o ano não chegava ao fim, a ansiedade era muita. Neste ano, com o bebê já nascido, minha vida tinha sido tão corrida, que, quando vi, dei-me conta naquele momento que minha filha já tinha quase um ano. Tantas coisas maravilhosas e também estressantes aconteceram, que esqueci de lembrar que estava vivendo. Sim, estava vivendo, e nem percebi. Quanto mais ansiedade e angústias temos, mais a vida parece que demora a passar. Já quando há milhões de coisas diferentes acontecendo, e quando estamos pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, acabamos vivendo a vida bem depressa, sem que percebamos. A vida acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos, como já disse John Lennon em uma linda canção chamada Beautiful Boy, escrita para seu filho Sean.

A questão portanto hoje é: quão rápido passará para mim o ano que se inicia? O que acontecerá? Não sei. Nada sei. Não tenho como saber. Vou continuar ocupada fazendo vários planos, isso é certo. E provavelmente não vou mesmo perceber que estou vivendo, mas estarei.

O tempo (e consequentemente sua passagem) depende do olhar, da vivência e da experiência de cada pessoa. Vivemos o mesmo ano, mas não o mesmo tempo. E temos diversos tempos diferentes ao longo dos anos de nossas vidas. O tempo em que esperaremos, e tempo em que trabalharemos ou estudaremos de montão, o tempo em que ficaremos muito tristes ou preocupados ou com raiva, o tempo de alegria da melhor qualidade. Só não saberemos, nunca, quando virão os diferentes tempos. Talvez dê para perceber que estamos passando por um tempo diferente, talvez não. Mas seguiremos vivendo.

Espero não ter decepcionado os leitores. Afinal, é ínício de um novo ano. Nada pior que começar um ano lendo uma bobagem.

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