A rosa

rosa

por Marcella Marx

Se alguém o visse ali parado, estranharia. Ele era daquele tipo de pessoa sempre ocupada, muito organizada, com horário contado, seu dia não tinha lugar para desperdício de tempo. Aquela manhã, porém, estaria para sempre registrada em seu livro imaginário de exceções.

Havia feito seu caminho corriqueiro e, até então, tudo andava como o planejado: café da manhã às 6h e 30min, saída às 7h, cruzar a cidade em seu carro e estacionar, dirigir-se à entrada do prédio. Às 8h, entrava no trabalho e lá passava 8h de seu dia. Nesse dia, algo inesperado ocorreu no curto percurso do carro até a porta do prédio. Nesse dia, o sol ainda não havia conseguido espaço entre as nuvens, e o vento tentava soprando fortes rajadas.

Atravessando o pátio, ele sentiu um odor que chamou sua atenção. Virou-se e olhou o jardim repleto de flores, uma em especial e de imediato desviou seu olhar. Uma rosa vermelha. O perfume que sentia vinha dela; apesar do jardim estar repleto de variedades, ele soube distinguir. Completamente aberta estava. Suas pétalas geometricamente organizadas apresentavam a perfeição – momento que, pensou ele, duraria poucas horas até que, esturricada pelo sol forte do verão, perdesse um pouco seu frescor. Aquele súbito pensamento, tão racional e insensível, o perturbou como nunca. Tentou então refazê-lo: “Que privilégio poder estar presente no ápice da beleza revelada”, e sentiu-se ainda mais lisonjeado em pensar que talvez fosse um dos únicos a contemplá-la assim, em seu estado mais sublime e passageiro. Por uns instantes esqueceu-se de tudo e parou ali perplexo, com os olhos e todos os outros órgãos de seu corpo embriagados por aquela imagem que refletia seu passado. Imerso naquele vermelho aveludado, transportou-se no tempo, para anos quase esquecidos.

“À sua volta ouviu de repente o burburinho de uma grande plateia, ouviu algumas pessoas pedindo silêncio. Sentia aquele frio imenso em sua barriga que ia subindo da espinha até a garganta, como se uma serpente caminhasse por ele, deixando-o arrepiado. Respirou fundo, mas a sensação de emoção misturada ao medo não cedia. Repassava mentalmente suas falas, pensamentos negativos o interrompiam insistentemente, teimando em afirmar que ele não conseguiria. Estava absorto por aquele pessimismo que o puxava para baixo, cada vez mais fundo… quando sentiu o leve toque em seu ombro, não a via, já sentia sim, sua confiança e cumplicidade. Aos poucos, recobrava sua coragem. Virou-se e correspondeu à mão que o procurava. Mantendo aquele enlace ergueu os olhos e deparou-se: cabelos soltos, olhos negros realçados pela pele morena e contrastando com o vermelho de seu vestido. Ao primeiro olhar as mãos se uniram mais fortemente e, através delas, sem que fosse necessária qualquer palavra ou gesto, tudo era revelado. Era um diálogo franco e aberto que não necessitava de qualquer linguagem outra que seus próprios corpos. Era uma sensação tão extrema que as pessoas à volta tornavam-se figurantes, desfocadas, ausentes e aquela energia soltava um grito mudo só escutado por eles. Caminhando entraram no grande salão, percorreram de mãos dadas o espaço até o palco.

A hora era chegada. As mãos continuavam unidas apesar disso. Apesar de não se sentir preparado, ele agia como se estivesse, e, mais que isso, inventava seu próprio universo, no qual, completamente seguro, mergulhava em seus afazeres rotineiros e acabava esquecendo quem era ou o que buscava. Indagava se aquilo era um sonho ou simplesmente vida. Seu futuro parecia tão certo que a própria perfeição tornava-se ambígua: pharmacon. Seu desejo era tão intenso que o levaria até seu objetivo, sem maiores empecilhos. Ao alcançá-lo, porém, não recordava mais o caminho. Não lembrava de seus passos, encontros, desencontros. Só o que via era a chegada, enquadrada em moldura de ouro cravado com diamantes: estático e milimetricamente organizado, exato. Afinal chegara e agora o que mais?

Seu sonho transformava-se em um doloroso pesadelo, no qual a perfeição o levaria à loucura. A contemplação excessiva, a adoração àquele quadro exato o conduzia à autocrítica destrutiva e à descoberta de que a perfeição não poderia ser real fora daquela moldura. Seus erros e pecados realçados e suas conquistas aniquiladas, tornando-o cada vez mais imperfeito, mais comum, mais… humano. Fechou os olhos um instante e só o que via era aquele vermelho que o cegava, e que contraditoriamente o impulsionava, vermelho…

Quando deu por si, já estava novamente fora do salão e o barulho retornava, outro. Todos riam e festejavam. Alguns bebiam, outros se abraçavam, outros ainda tiravam fotos. Apesar daquela inquietação externa, com todos procurando falar, ver e serem vistos, ele mantinha internamente uma ordem inversa: lento e calmo. Revivia, no meio daquelas pessoas, suas decepções, sofrimentos, angústias… e dentre tanta mistura vislumbrou o amor, num breve e intenso relance. Exatamente como imaginava, efêmero e intocável. Sagrado. A chama ia cessando quando, em meio àquele mar de gente, avistou-a e partiu em sua direção. Sem pensar no que fazia: agiu. Sem entender o que dizia: falou, e, sem querer confessou-se. Baixinho ao pé do ouvido proferiu: ‘Obrigado!’.”

Inspirou e ao expirar levou a mão ao encontro da rosa que exalava tal odor. Sentiu o espinho perfurar seu dedo. Não estranhou, de alguma forma já esperava. Trouxe o dedo até a boca e sugou o sangue enquanto admirava o contraste da rosa e o verde da grama.

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