A experiência do feijão (um ensaio sobre os sonhos)

experienciadofeijao

por Clarice Casado

“Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não viajamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar. O sonho é a viagem daquele que quer ir, mas não pode. Não pode ou por não ter barcos, ou por não saber para onde ir. Nos seus lugares mais profundos, o corpo é um navegante. Mora ali um fogo que não se apaga – Freud deu a ele o nome de “princípio do prazer”. Queremos navegar até o lugar (ou o tempo) onde encontraremos o prazer”.

“Um Mundo num Grão de Areia”, Rubem Alves

Quem nunca plantou um pé de feijão na infância que atire a primeira pedra!

A “experiência do feijão”, um desafio às jovens e ansiosas e pequenas mentes em formação (péssima palavra adorada por muitos, formação sugere colocar em uma fôrma, criar mentes exatamente iguais, fazer pequenos “bolos” de mentes infantis, coisa bem horrível!) consiste no seguinte: pegue um chumaço de algodão molhado, coloque-o em um recipiente qualquer, jogue ali alguns grãos de feijão, espere alguns dias, e, você terá um belo pezinho de feijão, em sua casa! Nunca poderá colhê-los, cresce apenas uma pequena plantinha com folhas verdes e uns brotinhos nas pontas, mas tais plantinhas deixam as crianças em uma felicidade tão contagiante, que a gente dá risada à toa, só de ver as carinhas triunfantes deles, “olha, mamãe, como o meu ‘feijão’ está grande!”.

O milagre do crescimento do feijão deve efetivamente perturbar e maravilhar as pequenas cabecinhas dos pequenos. “Como é que só jogando uns feijões ali, naquele algodão, pode fazer nascer uma plantinha?!”; “Serão mágicas as minhas mãozinhas?”; “Sou um bruxo!”; “Será que meu irmãozinho nasceu assim também?”, “Coisa esquisita…”; “Será que se eu cortar uma folha, nasce outra no lugar?”; “Não estou entendendo nada, como um feijão pretão pode ficar verde e com folhas…?!”; e as perguntinhas fantasticamente elaboradas devem brotar e ficar dançando ali no pensamento deles, nas suas mais diversas formas. E é por isso que digo que não poderemos jamais formá-los. Eles nunca serão iguais, seus pensamentos serão sempre diferentes, seus feijões crescerão sempre de maneira única. E, daqui a pouco eles vão brincar e esquecem de tudo, pra voltar à noite, olhar pro pote de novo e dizer, “nossa, papai, o meu feijão tá muito maior ainda, acho que vai quebrar”!

Quando tinha quatro anos, meu filho plantou seu primeiro “feijão”, na escola, seguindo a tradição infantil. Plantou o feijão na terra, ao invés de no algodão, dentro de uma lata de qualquer coisa, pintada de vermelho. E o tal pé de feijão, que foi colocado no quartinho dele, não parava de crescer como um desesperado, pra cima (sim, era altíssimo) e para os lados também. Tomei um grande susto quando o vi: depois de uns dois dias de plantado, ele estava enorme! Pensei que nunca havia visto um pé de feijão “caseiro” ser grande daquele jeito. Já estava começando a meter-me medo, até.

Minha teoria (e tenho várias sobre vários assuntos…) é a seguinte: a contagiante e intensa energia infantil do quarto do meu filho alimentou o pé de feijão, deixando-o forte, alto e lindo. O pé de feijão absorveu as energias positivas da menino e de seu ambiente.

Só lembro-me de ter visto um pé de feijão assim em um lugar: na história do João. Sim, aquela do menino que troca uma vaca por uns feijões, na crença de serem esses mágicos. O homem que propõe a troca garante a João que os feijões são enfeitiçados. João vai feliz para casa, mas, lá chegando, é muito castigado pela mãe, que julga ter sido aquele um péssimo negócio – no que, em princípio, tem razão, já que ninguém, em sã consciência, trocaria uma vaca por uns grãos de feijão, especialmente se e época é de “vacas magras” – ninguém, com exceção de uma criança. Uma criança, aquele serzinho fabuloso e inteligente que pode ser mais criativo que dez adultos com diploma de Harvard juntos!

Pois então nosso querido Joãozinho leva os feijões para casa, toma em seguida um dos pitos mais famosos da literatura infantil ocidental, e assiste, perplexo, sua mãe (que não tinha um diploma de Harvard, mas, se tivesse, não teria feito a menor diferença) jogando os feijões pela janela da casa, furioso. João vai dormir tristíssimo com a atitude da mãe. No dia seguinte, quando acorda, João vê que os feijões brotaram e cresceram de maneira fantástica! Transformaram-se em um enorme pé de feijão, que se alonga até o céu, a perder de vista. João vai até o topo, onde descobre viver um gigante que possui uma galinha que põe ovos de ouro (que, descobre João, o gigante roubara de seu falecido pai). João pega a galinha, aproveitando-se de uma distração do gigante, desce do pé de feijão, com o gigante vindo atrás dele; chega no solo e corta o pé de feijão, com a ajuda da mãe. Volta para sua casa, e é recebido com saudades e culpa por sua mãe.

Fiquei pensando que, assim como João, todos temos nossos grãos de feijão, ao longo de nossas vidas. São os nossos sonhos. Guardamo-los com carinho, queremos mantê-los e cultivá-los, na esperança de um dia tornarem-se realidade, mas, de vez em quando, algumas pessoas fazem questão de jogá-los fora. Algumas pessoas não dão força aos nossos sonhos, não acreditam neles. Mas os verdadeiros sonhos, aqueles que sonhamos com muita fé, realizam-se, independentemente de mãos e pensamentos invejosos. Os verdadeiros sonhos nutrem-se e crescem sozinhos, crescem até o céu, transformam-se em realidade. Alimentam-se de nossa energia, de nossa vitalidade, de nossa vontade de fazer uma diferença no mundo. E acabam por realizar-se, fazendo com que encontremos o tão desejado prazer.

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