O homem que calculava

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por Clarice Casado

Muitos de nossos melhores professores não foram realmente professores. Explico. Não foram professores formados, aqueles da escola, aqueles da faculdade. Certamente, todos tivemos professores “de verdade” que foram memoráveis, verdadeiros educadores. Mas hoje quero falar das pessoas comuns, de profissionais de diversas outras áreas que também contribuíram – e muito – para nossa educação, sem que sequer tenhamos percebido. Mas sabemos, hoje. Você agora já deve até estar lembrando de algumas dessas pessoas, aquela babá do coração, aquele tio querido que fazia mil pipas para você, a prima que fazia o melhor castelo de areia da praia e fez questão de te ensinar, o porteiro do prédio que te ajudou a dar as primeiras pedaladas na bicicleta sem rodinhas, a vó que te ensinou a fazer pão de queijo. Seu pai. Sua mãe. Todos educadores não formais, que, na sua completa informalidade, fizeram uma diferença enorme para nós, de maneira tão sutil, que só hoje, lendo essa crônica, você está percebendo.

O meu educador informal do coração (tive diversos, claro, mas este foi especial), era um homem que calculava. Estudou engenharia em uma família onde nenhum dos membros tinha sequer sonhado em ter um diploma universitário, deu duro. Formou-se engenheiro, casou-se com minha avó materna, que era filha de um português e de uma alemã, fez com que ela, protestante, se convertesse ao catolicismo (ele era descendente de italianos, seu pai cantava Santa Lucia em todos os almoços de domingo), casaram, tiveram três filhos, sendo que a do meio foi minha mãe, uma menina linda de olhos azuis que um dia encontrou meu pai em uma festa, apaixonaram-se, casaram-se um tempo depois, e então eu nasci, uma menina também linda, sem olhos azuis, que (veja só!) nunca entendeu nada de matemática.

Foi aí que nos encontramos, de verdade, pela primeira vez, meu avô materno e eu. Eu não entendia nada de matemática, porque os professores do colégio não conseguiam atingir-me com suas explicações. O meu avô engenheiro conseguia. Explicava aquelas coisas doidas (para mim, incompreensíveis) de uma maneira tão fantasticamente interessante e simples, que tudo ficava claro como céu de setembro. Dizia, “Não sei por que esses teus professores complicam tanto, guria! Aí, os alunos começam a detestar uma coisa tão bonita como a matemática!” Ou seja, eu não era incapaz para a matemática, eles é que eram incapazes de ensinar-me. Provavelmente, porque não eram educadores. Eram pessoas que tinham estudado matemática na faculdade, e não conseguiam, de maneira nenhuma, mostrar-nos o quão interessante e importante era aquilo, de um modo agradável.

E o vô, com seu jeito estabanado de ser (que eu herdei dele, dizem!), ria e divertia-se, falava alto e gesticulava, naquelas nossas descontraídas aulas particulares de matemática, ria e fazia-me rir, fazia-me feliz, educava-me, sem que eu percebesse. Foi um tempo tão curto e tão bom. Nunca agradeci a ele pelas aulas. Estou agradecendo hoje, e espero que ele leia esta, lá do Céu, onde ele deve estar agora calculando pra São Pedro…! Vô, obrigada!

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