Os sinos das seis da tarde

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por Clarice Casado

O taxista que chamei pelo telefone dirige-me um muito cortês “Boa tarde, dona Clarice, nós vamos para onde?”, e eu observo rapidamente o senhor careca, uns setenta e poucos anos, e penso, “Ele já levou-me para algum lugar recentemente”, mas não consigo lembrar nem quando nem para onde. Digo o meu destino, com a ligeira impressão de que aquilo tudo pudesse mudar completamente o meu dia e a minha vida (aparentemente não iria, porque eu estava indo para o lugar de sempre, no horário de sempre, para dar as minhas aulas de sempre). “Eu levei a senhora no último domingo, não sei se está lembrada, para um restaurante”, e eu, “Claro, claro, agora me lembro, e o senhor me disse que estava indo para a sua casa comer um nhoque, que eu era a sua última cliente do dia. E então, o nhoque estava bom?”. E ele discorre sorridente sobre o nhoque da esposa, todo orgulhoso, como se aquele nhoque fosse um símbolo de uma vida feliz. Invejei, por um segundo, o nhoque da esposa dele, porque eu não sei cozinhar, e creio que nunca, durante a minha breve existência na Terra, alguém vá poder elogiar um nhoque feito por mim com aquele sorriso e com aquela satisfação.

Passando pela frente da delegacia de polícia do meu bairro, ele começa a contar uma história. Sim, pelo tom que utiliza, percebo que ele vai começar a contar uma história, e eu vou ouvir atentamente, porque sempre gosto de ouvir os taxistas contando histórias. São extraordinários, os taxistas. Sempre têm fantásticas experiências para contar. “Sabe, Clarice (ele passa a chamar-me apenas Clarice, porque, creio eu, percebeu logo que quase poderia ser meu avô, e foi assim que me senti, no momento em que ele pronunciou docemente o meu nome: eu seria a neta dele, naqueles breves instantes), dia desses, eu peguei um passageiro em frente a esta delegacia, e ele era um ladrão”. Disse isso com maior tranquilidade do mundo, como se estivesse comentando o resultado do jogo de futebol de ontem.

E iniciou a narrativa, uma das melhores que já ouvi em toda a minha vida, seja em táxis ou fora deles. Ele tinha o dom de contar. E sentia prazer com isso, como todo prosador. Calmamente descreveu o momento em que o rapaz mostrou-lhe a arma e pediu-lhe uma carona até um bairro da zona leste de São Paulo, era só o que queria. O taxista pediu que o jovem (bem vestido e bem apessoado) guardasse a arma, pois, do contrário, não teria condições de dirigir, era um senhor de idade, ficaria muito nervoso. O jovem concordou.

O senhor contava tudo com muita calma, e eu até perguntei-lhe se tinha ficado calmo assim durante todo o tempo, e ele respondeu afirmativamente, “Nessas horas, Clarice, reagimos de maneiras absolutamente inesperadas, até para nós mesmos”, e eu concordei, plenamente.

O ladrão ficou cinco horas com ele, desde as oito da manhã até uma da tarde, e o taxista simplesmente foi levado até a casa do ladrão, tomou cafezinho feito pela mãe do ladrão (talvez não tão bom quanto o de sua esposa, que, como toda boa cozinheira, deveria ser mestra nisso também), deu carona para o ladrão até uma casa onde encontrava-se um grupo de amigos dele, que cheiravam cocaína e bebiam sem parar; levaram-no até um bar, ofereceram-lhe uma “pinga”, que ele aceitou (disse-me, “A essas alturas, o nervosismo começou a tomar conta de mim, e achei que a bebida me acalmaria”). O ladrão e seus amigos descreveram-lhe suas rotinas, contaram-lhe que “trabalhavam” à noite na Paulista, certamente assaltando nos faróis e vendendo drogas.

Após contar toda a história, o senhor fez uma pausa, meditou alguns instantes, e contou-me que tinha perguntado ao ladrão se alguma vez ele já havia pensando em largar aquilo tudo, “aquela vida”. Disse-me que a resposta do ladrão foi curta e rápida: “Se eu largar, me matam.” O senhor foi então liberado pelo ladrão e ainda recebeu dele vinte e cinco reais “para a gasolina”. Mais uma pausa, interrompida pela passageira que pergunta, “O senhor percebeu que foi sequestrado, certo?”, e ele, “Você sabe, Clarice, que eu só fui dar-me conta disso no dia seguinte. Conversei tanto com o moço, que, por vários momentos durante o tempo em que fiquei com ele, até esqueci que estava, em realidade, com a vida sob ameaça”. Impressionante.

No exato instante em que terminou a história, por volta de seis horas da tarde, ele comentou, mudando abruptamente de assunto, “Olha, está ouvindo? São os sinos de alguma igreja batendo, não é bonito? Preste atenção, sempre dá para ouvir o som de sinos batendo a esta hora, todos os dias”. Ao longe, abafado pelo ruído dos carros, das pessoas correndo e da metrópole respirando, podia-se mesmo ouvir o som de sinos dobrando. Percebi que há muito eu não escutava o som de sinos. Ou escutava, mas não percebia. Ouvidos acostumados. A tarde caía mansa, o céu estava bem colorido, lindo, anunciando o fim do verão. A história do taxista soava forte na minha cabeça, tal qual um sino. Ele deixou-me no meu destino e comentou, “Você é a minha derradeira cliente hoje de novo, sabia?”. Sorri, dei boa noite, agradeci, saí do carro, e ele seguiu satisfeito rumo ao resto de sua vida.

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