O aniversariante do farol

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por Clarice Casado

O que impressiona é que as ruas da cidade parecem cada vez mais um lugar onde tudo, absolutamente tudo pode acontecer.

Poderia ser mais um farol demorado, mas não foi. Foi um momento estranho, diferente, um momento para refletir. O rádio ligado (música ou notícias, não estou conseguindo lembrar-me bem), eu ali com milhares de coisas dançando no pensamento, nas coisas que teria que fazer amanhã e pelo resto da semana e também pelo resto da minha vida, e, de repente, a batida no vidro. Susto! Não seria possível que eu fosse ser assaltada de novo, há dois anos atrás um engraçadinho já havia levado o meu relógio no meio do trânsito.

Não era um pedinte. Era um vendedor de panos de prato. Era um homem comum, um homem que poderia ser meu pai, ou meu tio, um amigo: era um homem. Mas era um homem desesperado, podia-se ver o seu desespero, apesar da fisionomia tranquila e dos olhos escuros profundos que inspiravam paz. Fiquei pensando, naquela fração de segundo, quem seria o homem, por que estava ali, se teria uma família, uma mãezinha doente esperando-o em casa, uma esposa em pânico com uma criança de três meses chorando em seu colo por causa de uma dor de ouvido – paro. Chega. “De que adianta tudo isso?”, pensei.

Eu continuo olhando para ele, agora vejo que ele tem na mão direita algo que parece uma carteira plastificada, um documento, eu mal consigo enxergar, porque já é quase noite, aquele horário no qual o sol não é mais sol e parece que estamos em um sonho ou dentro de um quadro de Monet, aquele horário no qual temos vontade de estar vendo o pôr do sol ao lado do filho ou da pessoa amada, mas, não, eu estava no meio de trânsito carregado da capital, com um vendedor de panos de prato na minha janela, mostrando-me uma carteira de identidade, sim, agora podia ver bem, era seu documento de “RG”. Pude reconhecer seu rosto magro, barba por fazer, cabelos escuros, em uma foto provavelmente tirada há uns bons quinze anos atrás. Mas era ele. Sim, definitivamente era o mesmo homem, cujo nome eu não li. Ou li, e já não me lembro. E eu já me perguntando, “Por que raios esta pobre criatura está a mostrar-me a carteira de identidade?”, e, neste exato momento, ele aponta uma data: “10/OUT/1964”. Penso, “É a data de hoje, o cara está de aniversário”. Foi como se eu tivesse tomado um soco no peito. “O homem está fazendo aniversário hoje”.

Não sei por que ele mostrava a carteira. E sei, ao mesmo tempo. Ele estava fazendo anos, e estava vendendo panos de prato no farol. Ele estava fazendo anos, e não podia estar feliz. Não podia sentir-se feliz. Não podia comemorar. Não iria, no final do dia, tomar um chope com os amigos para comemorar. Não, ele não iria. Ele iria certamente ficar ali até altas horas da noite esperando que as pessoas oferecessem-lhe presentes de aniversário. Afinal, era o seu aniversário. O seu dia. Bandos de estranhos dentro de carros seriam os seus amigos, naquela noite; a sua família, naquela noite.

Eu não abri minha janela. Não abri porque o medo, a desconfiança e a loucura geradas por esta vida insana da grande capital nunca deixariam que eu apagasse as velinhas com ele. Mas, juro, o que eu queria mesmo era ter-lhe desejado os parabéns.

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