De homens e bichos

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por Clarice Casado

Meu pai nasceu em 1947, e eu em 1974, e eu não acredito em numerologia. Mas exatamente neste instante, quando resolvi começar deste jeito esta crônica é que percebi isso. Separados que somos por estes 27 anos, nunca tinha me dado conta disso. Meu pai sempre achou meio cabalístico o número “7” em sua vida. Diz ele que é cercado de “7”. Apresentei-te aqui, pai, mais alguns, veja só… Mas, pergunto, afinal (a mim mesma): que diferença isto fez nas nossas vidas? Talvez nenhuma. Mas talvez seja por essa e por outras que acho que somos almas gêmeas. É, porque alma gêmea não é só o “amor da sua vida”, mas também pode ser aquela pessoa que tem uma ligação fantástica com você, e você não sabe explicar o porquê. Isso é alma gêmea.

Eu e ele mantemos uma correspondência eletrônica há mais de cinco anos, desde que percebemos que a Internet e a comunicação por escrito seriam a melhor maneira de aproximar dois caladões como nós. E então começamos a nos falar assim, e falamos em tudo e sobre tudo. Desde o tempo e outras amenidades, passando pelas novidades da vida do meu filho (neto querido dele), com suas travessuras e conquistas, até filosofia e literatura. Ótimas conversas. Íntimas cartas.

São cartas tão bonitas, que tenho até um arquivo de todas elas, recebidas e enviadas, guardo tudo. Dali tiro muita inspiração. Ele me surpreende toda vez. Sempre digo a ele que deveria escrever também, porque, sinceramente, acho que ele escreve muito melhor que eu. (Pai, vai escrever, vai!).

A última carta, que recebi hoje, uma resposta a uma outra que eu havia enviado antes, tinha como título a interrogação “Sumida?” (o engraçado é que carta eletrônica tem título, é como se você classificasse os assuntos, é uma espécie de biblioteconomia epistolar, se é que posso mesmo dizer tamanha loucura….). Bom, mas a tal carta, recheada de assuntos interessantíssimos e super bem escritos (como sempre), trazia um fato, um simples fato, que, narrado por ele, tornou-se fantástico.

Peço a ele agora licença para contar o fato aos meus leitores, ainda que não da maneira especial com que ele fez. Antes, porém, preciso fazer um breve histórico dos acontecimentos que antecederam tal fato.

Certa vez, há alguns anos, meu filho e eu demos a meu pai dois periquitos que eram nossos. Ele seria o guardião de nossos periquitos em Porto Alegre. Na época, meu filho, então com quase três anos, as havia “batizado”. Meu pai resolveu “rebatizá-las” de Cá e Bê, em homenagem à minha irmã e minha mãe, respectivamente, já que as pequenas “periquitas” eram um pouco briguentas, assim como as verdadeiras “donas” dos nomes (desculpem-me, Mana e Mãe, mas eu precisava dar ao leitor essa explicação, eu sei que vocês na verdade se amam…!!!). Por serem tão briguentas, meu pai separou-as em duas gaiolas. Ainda assim, contava ele, “trocavam farpas” as danadas!

Recentemente, então, em uma bela manhã de outubro, meu pai foi surpreendido pela gaiola da Bê sem o piso. Chegou mais perto, e constatou que ela havia fugido pelo fundo. Deveria ter se mexido muito a bichinha, fazendo com que caísse o piso da gaiola, e, portanto, ficasse completamente aberta. Não conseguia entender como aquilo havia acontecido, pois tinha sido sempre super cuidadoso. Mas o fato é que a Bê fugira, ou, como ele preferiu chamar, “libertou-se”. O título da carta eletrônica que ele me enviou contando o fato era “Bê Libertada”, sendo que ele iniciava a carta dizendo que eu não pensasse que ele estava a copiar Torquato Tasso, (de “Jerusalém Libertada”).

Ora, mas isso nem importava naquela hipnótica carta. O que importou, isso sim, foi a maneira com a qual ele lidou com o assunto. Libertou-se a Bê, não fugiu. Ali, em meio à selva de pedra, talvez tenha sido, segundo ele, antes de morrer, por alguns instantes feliz (ela, que nunca tivera antes liberdade), voando livre pelo céu azul sem igual da cidade. A periquita deve ter mesmo morrido logo, já que ela era um passarinho criado em casa, que não saberia sobreviver nos céus da cidade grande. Sequer sei se periquitos criados em casa tem tanta capacidade de voar. Bom, nem nós, humanos, sabemos viver seguros em meio à selva de pedra, o que dizer de uma pequena periquitinha indefesa? Voou. Deve ter sido mesmo feliz por alguns instantes, ou algumas horas, porque imagine-se que maravilhoso para um pássaro deve ser voar no azul… Pássaros em realidade nasceram para voar. E, sabemos bem, que coisa bem horrível é passar-se uma vida fazendo-se algo de que não se gosta, ou estar em algum lugar onde não se quer estar. Mas Bê libertou-se, e, creio, meu pai até ficou feliz com isso.

Mas a libertação da Bê não foi o conteúdo da mais recente cara dele. Não. A mais recente fala da periquita que ficou, a Cá. A Cá, coitadinha, após a libertação da Bê, continuou sua vida de periquita, mas não muito feliz. Apesar das constantes brigas, sentia falta da Bê. Na época da libertação da Bê, meu pai comentou que não sabia o que aconteceria com a Cá. Na carta mais recente, porém, ele disse que já imaginava que isso iria acontecer: a Cá morreu. Ele entrou em seu escritório caseiro, olhou a gaiola, e encontrou a Cá agonizando. Meu pai acha que ela morreu de tristeza, pela falta que sentia da Bê. Disse ele que depois que a “Bê saiu pelo mundo”, a Cá não mais “cacagritava” (segundo meu pai, o som que os periquitos fazem, mistura de cacarejo com gritos), não mais bicava o jornal do fundo da gaiola, o que adorava fazer, e, ainda por cima, deixou de comer o bastãozinho de cereais que meu pai colocava pra ela, e que geralmente os pássaros amam. E então ele me pergunta e conclui: “Tristeza? Acho que sim. Morreu de tristeza a Cá. E, depois, querem fazer tanta diferença entre homens e bichos…”.

É, Pai. Não acho que haja diferença entre homens e bichos quando se fala em tristeza, não. Aí está. Somos iguaizinhos. Eles podem sofrer com a perda e com a morte tanto quanto nós. Mas o estranho é a “não consciência” da tristeza. Claro, porque os bichos não possuem a consciência do sentimento, mas o têm. Esquisito, não? Algo parecido ocorre com as crianças pequenas. A consciência dos sentimentos mostra a maturidade da criança. Mas como é horrível começar a ter consciência dos sentimentos… Vivemos tão felizinhos até o momento em que, sem nem sabermos por que, somos colocados, pela primeira vez, face a face com a tristeza, a saudade, a paixão arrebatadora, a perda, a morte. É nesse exato momento que a gente começa a amadurecer. E algumas experiências de amadurecimentos são duras, com perdas inestimáveis. Foi talvez o que tenha ocorrido com a pobre Cá, que, de tão triste, faleceu. Sem sua companheira (nem que fosse para brigar!), que sentido haveria para que ela permanecesse ali?

Senti agora uma saudade estranha, saudade de coisas que não voltam mais. Essa foi a dor de saudade da Cá. Dor sem tamanho.

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