Linguagem virtual

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por Clarice Casado

Se você tem um filho adolescente em casa, ou convive intensamente com um (ou alguns!), já deve ter percebido o fenômeno: eles não só falam um dialeto que lembra vagamente o português, como o escrevem de maneira tão estranha, mas tão estranha, que às vezes não é possível entender quase nada!

Em uma interessante e recente propaganda veiculada em uma das maiores rádios do país, vozes adolescentes soam: “Aí, tipo assim, vamu lá?” e “Meu, tá ligado, é suça…” ou ainda “Cara, tipo assim, é foda…!”. Logo em seguida, uma voz de locutor diz mais ou menos isto: “Leve seu filho à exposição de Antonio Gaudí no MASP, de tal dia a tal dia, antes que seja tarde demais”. Depois de ouvir a propaganda, ri-me sozinha. Perfeita. Muito bem bolada.

O problema não são as gírias, já que elas existem há muito tempo, e existirão por muito tempo, renovando-se a cada mês, a cada dia. Gírias são interessantes, são um tipo de marca cultural de um povo em uma determinada época. Gírias são a língua viva, a a língua falada, a língua em estado bruto. As pessoas costumam identificar-se com os pares da mesma idade através das gírias. É muito comum ouvirmos, “Ih, Fulano, não diz ‘que bárbaro’, porque mostra a sua idade!”.

O problema, hoje em dia, é a ausência de palavras, a repetição de termos sem sentido, a mesmice. Os adolescentes têm muito a dizer, quem convive com eles sabe disso. O problema não é este. O problema, e é disso que tenho medo, é que não sabem, muitas vezes, como dizer. Não é uma regra. Não estou dizendo, de maneira nenhuma, que absolutamente todos sofrem do “problema”, porque conheço alguns que não (por um acaso, esses “alguns” são os raros que gostam de ler…). Mas uma boa parte, infelizmente, está contaminada!

Dia desses, li um bilhete de um adolescente a outro, e encontrei as seguintes “palavras”: “vc”, “tb”, “eh”, “naum”, “toh”, “soh” e “bjs”. Sim, essas “palavras” estavam em um bilhete escrito a mão! Na mesma hora, entendi: quando eles conversam pela Internet, pelo conhecido MSN-Messenger, utilizam-se dessas “palavras”, já que as mensagens devem ser rápidas. Usam abreviaturas (vc = você; tb = também; bjs = beijos) e também outras palavras acentuadas, que, na Internet, aparecem, em alguns casos, como “eh”, que é equivalente a “é” e “toh”, que é “tô”, por exemplo. Isso sem falar no “naum”, que é, em realidade, “não”. O til não existe mais. Ou, pelo menos está com os dias contados…!

E então, o que me veio à cabeça imediatamente foi isto: talvez a língua portuguesa escrita esteja iniciando um novo processo de mutação, ao qual estamos assistindo, mas não temos ainda a total percepção do fenômeno. Um processo de mutação como os diversos que vêm ocorrendo com as línguas do mundo inteiro ao longo dos séculos, desde que o ser humano soltou o primeiro grunhido pré-histórico e rabiscou o primeiro traço em uma caverna qualquer.

Se os adolescentes escrevem assim em bilhetes, ou seja, da mesma maneira como comunicam-se pela Internet, em breve estarão escrevendo assim em provas e trabalhos escolares e até no próprio exame Vestibular. Se só se acostumam a escrever assim, não conseguirão, em breve, escrever mais a língua portuguesa “normal”. Os adolescentes de hoje são os jornalistas, os executivos, os professores, os advogados, os publicitários, os escritores (!) de amanhã e de depois de amanhã, que estão criando uma nova “norma culta”, será? Bem, não se pode negar que é assim que ocorre a evolução linguística. Se todo mundo resolver começar a escrever “eh” em vez de “é”, em algum tempo o novo vocábulo acabará sendo incorporado à língua escrita! Minha nossa, que loucura…

E só o que podemos fazer é que ficar assistindo a evolução, quietinhos. Continuamos escrevendo “certinho”, falando “certinho”, e, muitas vezes acabamos por não compreendê-los. Será a “nova língua” a causadora de um gap de gerações da virada do milênio? Vamos esperar para ver. E enquanto isto, vc naum prefere tb ir treinando? Eh uma boa ideia…! Bjs!

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