As lágrimas de Nietzsche

nietzsche

por Clarice Casado

Comprei um livro hoje. Um livro como qualquer outro. Mas não é um outro qualquer. Foi um livro que me chamou. Costumo comprar livros por indicação de pessoas. Pessoas nas quais confio. Pessoas que são intelectualmente interessantes, estimulantes. Ou é assim, ou é porque a obra é um grande clássico, ou ainda, porque achei o título fantasticamente atraente. Amo títulos. Títulos representam o início e o fim. E o meio, também. Mesmo em se tratando de livros onde o autor não esteja nem ligando para início, meio e fim. Os bons escritores sabem que um bom título é a alma da obra.

Gosto de títulos, e ponto. Já comprei muitos livros em razão de seu título. Mas este foi especial. Entrei em uma livraria hoje à tarde, sem nenhuma pretensão literário-consumista específica, e “ele” atropelou-me, sem a menor cerimônia, falando, não melhor, gritando alto como criança em dia de festa de aniversário: “Leia-me!”. Não era apenas um pedido. Era uma exigência. Sim, “ele” ordenou-me que o lesse: Quando Nietzsche Chorou. Quem não cederia a tal título?

Não vou mentir. Pouco sei sobre Nietzche, sua vida e sua obra. Sei o que alguns professores mencionaram a seu respeito na faculdade de Letras, e lembro-me de algumas coisas comentadas pelo meu marido quando estudou as obras de Nietzsche em seu mestrado em Direito. Cheguei a começar a ler O Anticristo, umas de suas mais célebres obras, mas não terminei.

É, há alguns livros que não termino. Simplesmente decido que não vou terminá-lo, e pronto. Nenhuma culpa, nenhum remorso, nada. Leio diversos livros ao mesmo tempo, romances, poesias, crônicas, contos, teoria literária, linguística. Termino apenas aqueles que conseguem capturar-me. E muitos me capturam. Muitos capturam minha alma, minha essência, meu corpo, até: sigo lendo livros que me dominam, que não me permitem deixá-los. Que me fazem querer permanecer para sempre com eles, e eles comigo, mesmo quando terminam.

Nietzsche não me capturou, ao menos há alguns anos, quando tentei lê-lo pela primeira vez. Isso não quer dizer que nunca será capaz de capturar-me. Pelo contrário, tentarei de novo, obviamente. Por enquanto, mergulharei na ficção do psiquiatra norte-americano Irvin D. Yalom, autor da obra. Nela, os personagens principais são, nada mais nada menos que o jovem médico Sigmund Freud, o próprio Nietzsche à beira do suicídio, e ainda o fictício médico Josef Breuer, que será encarregado das sessões de psicanálise do grande filósofo alemão.

Disse Vargas Llosa que os temas escolhem os escritores, e eu penso que os livros escolhem os leitores. Quando Nietzsche Chorou escolheu-me hoje. Disse “Leia-me”, com todas as letras, e eu ainda posso ouvir a sua voz penetrante me chamando. Quando Nietzsche Chorou deseja-me. Deseja cada pedaço de mim. O que temo, agora, é de não corresponder à altura de tanto desejo.

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