Mistérios das mil e uma noites

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O elevador para no sexto andar. Olho impaciente o relógio. Quase oito horas, estou atrasadíssima (como sempre), e a praga do elevador resolve parar no sexto andar, ele poderia saber que estou atrasada, mas convenhamos, é claro que não sabe, é um elevador, afinal. Pensamentos idiotas como este costumam invadir-me antes das dez horas da manhã, o horário em que minha mente realmente acorda. Meu corpo acorda às seis e meia ou sete, e a mente demora mais umas duas ou três horas para começar a funcionar. Sempre fui assim, e não tenho nenhuma intenção de tentar mudar aos trinta anos. Mesmo porque não sei se conseguiria mudar algo que faz parte da minha natureza.

Mas estava no elevador que havia parado no sexto andar, e a porta se abre e entram um homem e uma mulher, exatamente nesta ordem, sim, ele entra antes dela. Não me surpreendo, a princípio, porque, nos dias de hoje, a ausência de cavalheirismo no mundo todo é gritante. Ele traja um terno, sapatos, gravata, roupas de trabalho, roupas de executivo. Ela é quem chama a minha atenção: roupas típicas do Oriente Médio, mas não sei de onde. Vem-me automaticamente Sherazade ao pensamento, Sherazade contando histórias para seu marido durante mil e uma noites para não morrer. Uma longa túnica, cabelos escuros e longos, cobertos por um discreto véu azul turquesa, maquiagem muito carregada nos olhos, pulseiras, colares e anéis aos montes. Anéis. Meu olhar pousa mais um tempo nas mãos dela. Não há só anéis, há também uma pasta. Uma pasta dessas de executivo, parecendo ser masculina. Imagino se será dele. “Ah”, penso, são os vizinhos muçulmanos. Sim, a pasta deve ser dele, ela a está carregando. Em minha mente, vêm todas as ideias pré-concebidas que nós, ocidentais, temos sobre as mulheres muçulmanas: submissas, sofridas, inertes, sem voz ativa. Isso é o que sempre ouvimos. Mas volta na mente Sherazade, tão cheia de magia, tão cheia de coragem, tão cheia de imaginação e criatividade, tão sutilmente dominadora…

Mas, sim, a pasta deve ser dele. Cheiram a curry, ervas, lá sei, eles têm um cheiro diferente, de temperos. Imagino se têm também uma personalidade tão temperada quanto o cheiro que exalam. Cumprimentam-me com um cordial “bom dia”, mas bastante discreto. Ela mantém a cabeça baixa durante toda a viagem até o segundo subsolo, onde ambos guardamos os carros.

Segundo subsolo. Agora observo (sem ser vista), como irão sair do elevador. Ele na frente, ela seguindo atrás, ainda com a pasta na mão. Dirigem-me um rápido “até logo”, seguem até seu carro, e eu ainda discretamente observando-os. Enquanto entro no meu carro e dou a partida, vejo que ela entrega-lhe a pasta, mas não entra no carro. Choque. Ela não estava indo com ele. Ela apenas tinha descido para carregar-lhe a pasta, e desejar-lhe um “bom dia de trabalho” ou algo que o valha na cultura deles. Fico imaginando o que ela lhe sussurra ao ouvido, com um belo sorriso. Sorriso. Parecia bem feliz.

Chocou-me aquela oriental felicidade dela, aquela felicidade toda àquela hora da manhã, depois de ter acompanhado seu marido até o carro, carregando sua pasta de trabalho. Chocou-me o fato dela parecer tão orientalmente feliz por estar ali, carregando a pasta do marido e depois sorrindo, feliz. Um choque ocidentalmente previsto. Ocidentalmente preconceituoso. Um choque ocidentalmente sem motivos, como se eu fosse superior a ela, ou melhor do que ela, ou mais independente que ela, ou mais livre que ela, por estar ali sozinha, indo para o trabalho carregando a minha própria bolsa e a minha própria pasta, dirigindo o meu próprio carro, em um mundo ocidental, como já disse antes, onde atualmente é raro ver um homem dar a prioridade de passagem a uma mulher em uma porta de elevador ou em qualquer outra porta.

Vejo-a afastando-se lentamente, como se dançasse. Vejo a túnica leve e livre, e muito solta, dançando com ela, no ritmo dela, ao som de uma música inaudível e invisível, a música das palavras dela – suas palavras de Sherazade – e penso que ela também é muito livre, em realidade. Ser livre é poder carregar a pasta de quem se ama sem ter a menor vergonha disso, para provavelmente depois receber muito em troca.

“Carregamos pastas” das pessoas que amamos diariamente. De nossos filhos, de nossos maridos e esposas, namorados ou companheiros; de familiares, de amigos queridos, de colegas de trabalho, e todas essas pessoas carregam também as nossas. E vale a pena, quando faz-se com carinho. As recompensas sempre são boas, principalmente quando a ajuda é reconhecida. E precisamos saber como fazer com que os outros reconheçam nossos feitos, nossas doações de alma, nossas renúncias, bem como temos de aprender a reconhecer o apoio e dedicação que recebemos dos que nos rodeiam. Creio que essa troca constante seja essa uma das principais fontes para um perfeito entendimento mútuo.

Não sei exatamente qual seria a recompensa da minha Sherazade do elevador, mas pelo sorriso satisfeito dela, certamente seria muito boa. Deve agora estar lá, contando-lhe histórias, enfeitiçando-lhe o pensamento, penetrando-lhe a alma, fazendo-o perfeitamente feliz.

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